O Natal em diferentes fases da vida

Na minha adorável infância, o Natal preenchia nossa casa. Eu guardo com carinho e nostalgia (que aperta meu peito) as memórias dessa época do ano. Lembro de estarmos sentados ao pé da árvore, montando o presépio com miniaturas de gesso que jamais foram substituídas. O bercinho de Jesus estava lascado, um dos Reis Magos perdera seu nariz, e uma das vaquinhas tinha que ficar escorada na parede - a única forma de mantê-la em pé.

Por que minha mãe comprou bolas sem fio? - eu me perguntava, enquanto passava o fio através da abertura da bola com a pontinha dos dedos - Por que a fábrica não vende bolas com fios amarrados? - Eu adorava as bolinhas com ganchinhos, pois eram práticas e paravam juntinho do galho. Desde pequena, sempre dei valor à harmonia estética, e calculava a melhor posição para cada bolinha e sininho. Duas bolas da mesma cor e tamanho, uma do ladinho da outra, faziam minhas sobrancelhas franzir, criando dentro de mim uma reação tão incontrolável quanto a gravidade - eu precisava colocar uma delas mais abaixo.

Eu ficava impressionada ao ver meu pai subindo no telhado para colocar as luzinhas pisca-pisca. E amava ver nossa casa de longe ao anoitecer. Lembro muito bem dos meus irmãos enchendo meu coraçãozinho de esperança - Amanda! Olha o Papai Noel! Tá alí na chaminé! Olha! Olha! - E eu caía nessa todos os anos - Onde? Onde? - Eu nunca desconfiei do fato de que eu jamais conseguia ver o Papai Noel com meus próprios olhos - Ahh, não! Ele foi embora, Amanda. Será que ele deixou presentes?

Foi tudo muito mágico para mim, e sou grata por essa benção leve e ingênua. Porém, quando me descobri adolescente, aquela magia começou a desbotar. Eu me questionava quanto ao catoliscimo, Jesus não fazia muito sentido na minha cabeça, e eu já não queria passar tanto tempo com minha família. Foi na adolescência que detectei uma troca de presentes desnecessária, que parecia mais um dever a ser cumprido do que um ato genuíno.

Em 2019, eu me mudei para França, dando início a minha vida de cidadã do mundo. E lá passei meu primeiro Natal sozinha, algo que parece melancólico e inadmissível para muitos. Contudo, longe de casa, longe de hábitos antigos, longe de padrões repetitivos, eu pude recomeçar do zero. Tive a oportunidade de ser quem eu realmente queria me tornar.

E nesse processo, abri espaço para minha espiritualidade e descobri um lugar dentro de mim que me dava respostas, questionamentos e mais respostas. Dentro desse universo particular, eu me reconectei comigo mesma. Eu já não celebrava o Natal, mas Yule, o solstício de Inverno.

Hoje em dia, nessa mistura de Yule e Natal (tudo farinha do mesmo saco), voltei a celebrar essa época do ano com magia e paixão. Eu e Sami decoramos um pinheiro (de verdade!), espalhamos pela casa miniaturas de Papai Noel e Tomte (criatura do folclore sueco), escutamos hits natalinos e, inclusive, assamos pãezinhos natalinos de açafrão, Lussebullar.

Eu não contava com a ideia de que o Natal voltaria a ser especial. Não é somente a família. Não é meu namorado. Não são presentes e adornos. É uma segunda chance, um renascer. É aceitar o que se passou, encerrar ciclos com respeito, agradecer pelos aprendizados e deixar a Roda girar. No seu tempo.

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6 comentários:

  1. Aww que legal Amanda!

    Acho que quando uma comemoração tem um significado maior, a celebração é muito mais gostosa. Deixa de ser uma tradição qualquer e vira uma tradição pessoal. Eu não acho que eu tenha isso tão profundo quanto você. Mas tento pensar que o Natal é a celebração do amor. É quando eu posso passar bons momentos com a minha família.

    Feliz natal e ótimo ano novo pra você e sua família ♥

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    1. Oi, Cláudia! E existe coisa melhor do que enxergar o Natal como amor? Parece que tudo, lá no fundo, tem o amor como raiz. Querer um renascimento, uma segunda chance, é reflexo de amor próprio, de amor pela vida!

      Feliz Natal! Happy Yule! Muito amor para você e sua família <3

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    2. eu acompanho o seu blog já tem um tempinho (desde quando foi criado, óbvio). e eu amo as suas reflexões. natal tinha perdido um pouco o sentido pra mim, mas quando chega no dia e eu vejo o quanto sou sortuda por ver a minha família ainda reunida, por mais tóxica que seja, eu me sinto grata. o natal tem diversas facetas, porém basta nós meros seres humanos saber interpretá-lo

      um beijo, boas festas ♥

      https://acquata.blogspot.com/

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    3. Olá! Nossa, meu olho brilhou a primeira frase do teu comentário! Muito obrigada!

      E depois desses dois útimos anos, a gente agradece ainda mais, não é? Essa magia do Natal deveria durar o ano inteiro!

      Um abraço apertado!

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  2. eu acho o natal uma época tão maravilhosa!
    eu não tenho memórias do natal, na verdade lembro da única vez que essa magia chegou perto de acontecer, que foi um dia que o papai noel deixou os presentes na porta de casa e eu jurei ter visto o trenó dele voando... crianças né

    depois disso minha mãe entrou pra uma religião que não comemora nenhuma dessas datas, acho que por isso hoje sou completamente apaixonada por tudo. minha primeira árvore de natal eu montei em 2020, aos 24 anos de idade, e pra mim foi tão mágico!!!

    eu não sou cristã, mas eu entendo essa data através da perspectiva de recomeço também, de proximidade e amor.


    amei demais seu post

    beijosssss
    Carol Justo | Justo Eu?!

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    1. Oi, Carol! Primeiramente, Feliz Ano Novo!

      Hahaha tu jurou que viu o trenó! Crianças têm um potencial de acreditar, uma esperança que parece infinita! Amo demais!

      Eu acho ótimo que tu crie o Natal para ti mesma, com o teu próprio significado. E que esse recomeço abra caminhos para todas nós!

      Um abraço, Carol!

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