O tal perrengue chique: dificuldades que enfrentei até chegar em Napoli

Alguns dias antes de fazer minha mala e me despedir - novamente - da minha família, eu escrevi um poema que reflete parte da vida nômade dessa nova era. Era como se eu estivesse me preparando para a aventura que estava por vir. A estrofe final dizia:

That's how I get that salt (É assim que consigo aquele sal)
How I get rum in a coffee pot (Que eu consigo rum na cafeteira)
How I lose control in free fall (Que eu perco controle em queda livre)
Landing braver than I ever thought (Aterrissando mais corajosa do que jamais pensei)

How I lose control in free fall, landing braver than I ever thought... Se você me perguntasse o que se ganha com uma vida nômade, minha resposta seria "confiança em si mesmo".

Meu perrengue começou antes mesmo de ir para o aeroporto. Como vocês já sabem, eu morei na França por 03 anos, e ainda tenho a conta de celular da operadora Free, que me possibilita usar dados móveis em vários países, incluindo o Brasil. Depois de quase 04 meses usando a conta da Free em terras brasileiras, por algum motivo desconhecido, tive minha conta suspendida.

Internet e conta telefônica evaporaram do meu celular 02 dias antes de eu embarcar para Itália...

Quando eu finalmente aceitei que não tinha como consertar a situação estando no Brasil, o primeiro consolo foi pensar que tinha wi-fi nos aeroportos, portanto, eu poderia manter minha família e a escola na Itália informadas da minha localização e segurança. O segundo consolo foi pensar que antigamente viajávamos para o exterior sem nunca termos ouvido a palavra "internet". O terceiro e mais poderoso consolo foi pensar que minha mãe, há muito tempo atrás, quando a internet discada ainda era um luxo, viajou sozinha de Portugal à Itália, portando apenas um mapa nas mãos e muita coragem no coração.

Porto Alegre, Campinas, Lisboa, Roma. No meio daquela italianada intensa e sua dança das mãos, fui recuperar minha bagagem despachada - aquela mala novinha em folha que havia comprado 02 semanas antes da viagem. A mala havia sido quebrada entre conexões.

Terrivelmente quebrada. Segue uma foto.

Era uma mala pesada e gigantesca com apenas 03 rodinhas, e isso dificultou o resto do meu percurso, que incluía duas viagens de trem até Napoli. Conversei com a assistência do aerporto, pedindo que eles me reembolsassem na compra de uma nova mala, e essa parte foi bem tranquila. Difícil foi me manter ágil com duas malas (uma delas quebrada), sem perder o horário dos trens, e cansada depois de quase 24h de viagem. No momento que meus pés pisassem para fora do aerporto, eu perderia comunicação com a escola, então tudo teve que ser improvisadamente planejado para que eles pudessem me buscar na última estação de trem - que eu quase perdi.

Era a última viagem. Eu estava cansada. Eu tinha hematomas no braço e nas pernas. A comunicação com os italianos me deixava exausta. Eu era a única pessoa naquele vagão. Um silêncio. Era tarde da noite, e a janela era uma tela preta, retratando apenas o meu reflexo descabelado e os assentos desocupados.

Um funcionário do trem foi muito gentil em me oferecer água. Porém, logo depois, ele retorna sendo gentil demais, oferecendo vinho e lanchinhos. Ele queria saber da minha vida. Brilhou os olhos quando eu disse que vinha do Brasil. Escaneou meu corpo dos pés à cabeça. Sei una cosa molto bella - ele disse. Tradução: você é uma coisa muito bela.

Ninguém naquele vagão. Ninguém além de seus olhos famintos, e formas de lutar contra um possível estupro que se passavam como um filme na minha cabeça.

Cruzei os braços e não reagi àquele comentário desnecessário. Ele viu que eu não queria conversa e finalmente foi embora do vagão. Foi quando voltei a respirar.

Napoli Afragola. Era essa minha parada, e eu já estava em frente à porta pela qual havia entrado, mas ela estava demorando muito para abrir... oh não! Aquela porta não estava programada para abrir, e sim a porta do outro lado do vagão. Eu tinha pouco tempo para me locomover de um ponto a outro com aquela mala quebrada, que travava no meio do caminho a cada metro andado.

Respira. Respira. Vai dar tempo. Chego em frente à porta, coloco a malinha pequena na plataforma e escuto um biiiiiip - as portas vão fechar! A mala quebrada ainda estava dentro do trem, e minha ansiedade estava por tudo que é lado. Eu jogo a mala para fora do trem, pulo os três degraus da escada, e as portas se fecham logo atrás das minhas costas.

Minha respiração tremia. Consegui - minha mão sobre o peito, na esperança de mantê-lo dentro do meu corpo. Nenhum sinal de vida na plataforma. Onde é a saída? Meu chefe estaria me esperando na estação. Começo a arrastar minhas malas e noto que mais uma rodinha está faltando. Ela se encontrava a dois metros de distância.

Eu e minhas 06 rodinhas caminhamos em direção à saída, onde meu chefe me esperava com um sorriso e um abraço. Eu não estava em casa, mas aquele rosto familiar foi o alívio de um lar.
°°°
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4 comentários:

  1. Menina, que perrengue! Ainda bem que deu tudo certo. Fiquei super tensa com a parte do funcionário do trem. Ser mulher não é facil viu...

    www.umnovodestino.com.br

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    1. Siiiiim! Ainda bem! Tinha que dar certo! Quando eu contei para minha mãe, ela me respondeu: "Amaaaaanda! Tu não pode ficar sozinha nos vagões!"

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  2. Entrei num loopping de pensar que antes as pessoas viajavam sem internet e agora to horrorizada??????????


    Limonada

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    1. Né? Nós criamos uma dependência absurda!
      By the way, eu visitei teu blog rapidamente, e devo dizer que amei o layout! Vou visitá-lo novamente!
      Um beijo!

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