Uma conversa sobre +50 com minhas tias

Era comemoração do aniversário de duas tias muito queridas para mim. Elas fazem aniversário no mesmo dia, mas não são gêmeas. Até onde minha memória consegue me levar, minhas tias sempre celebraram esse dia juntas, rodeadas por família, e rodeando uma mesa farta de comida e histórias do passado que já sabemos de cor.

Eu sempre me senti à vontade com elas. Na verdade, elas ficariam muito chateadas se eu não me sentisse à vontade com elas. Celita, além de tia, minha madrinha, tem aquela risada que preenche os quatro cantos de uma cozinha, uma risada que já começa no mais alto volume, aquela risada sincera que faz falta no dia-a-dia.

Minha outra tia, Udila, é madrinha do meu irmão, mas não consigo vê-la dessa forma, pois foi sempre como se ela também fosse minha madrinha. Convenhamos, esses rótulos não fazem diferença alguma, mas, mesmo assim, eu sempre a enxergarei como minha madrinha.

Udila é aquela tia que começa a preparar um bolo antes da visita chegar, podendo, assim, servir algo recém saído do forno. Assim a gente pode comer o bolo quentinho! Ai, eu adoro bolo quentinho - ela diria, enquanto esquenta a água para o chá.

Como não se sentir à vontade com essas duas tias?

Eu me senti à vontade o suficiente para perguntar a Celita como ela havia se sentido ao virar o dígito da dezena para 5, ao passar dos 50, ou, como ela mesma costuma dizer, "cruzar o Cabo da Boa Esperança".

Ai, Dinha... - ela suspira olhando para o teto, como se alguma resposta fosse cair dali através de um portal mágico. Ela termina de secar um prato, apoia o pano em cima da mesa e solta os ombros - É complicado. Ela me contou sobre enterros, sobre a aceitação da morte e de doenças, sobre assumir cabelos brancos e sobre os calores da menopausa.

Udila, que está quase mudando o dígito para 7, aparece na cozinha em busca de algo. E tu, Udila? Como tu te sentiu depois dos 50? - tia Cê lança a pergunta como se estivesse lançando uma batata quente.

Não era uma batata quente que tia Dila estava procurando na cozinha, mas, segurando essa pergunta com firmeza, ela se vira em minha direção, encontra meus olhos e diz sem esforço algum - Tu aprende a viver o hoje. Ela continua seu caminho em direção à geladeira - Eu trabalhei muito a vida inteira. Foi sempre uma correria. Hoje, eu não penso no amanhã. Eu penso no hoje - sua cabeça escondida atrás da porta geladeira - O que eu vou fazer hoje? O que tenho que fazer hoje? Essa casa é muito grande - ela fecha a porta, segurando uma travessa de vidro com aipim cozido - Sempre tem algo para limpar, uma grama para capinar. E assim vamos vivendo.

Minhas tias são bem ativas, principalmente Udila, que viaja em excursões da terceira idade, recebe amigos para um café da tarde, faz aulas de alongamento e que está sempre criando algo novo no quartinho do artesanato. Várias de suas atividades em grupo foram vetadas por conta do Covid-19, mas ela procura (e encontra) formas de se ocupar. Formas de se ocupar hoje, de fazer o que lhe dá prazer hoje.

Alguns dias depois, meu namorado me liga por uma vídeo-chamada (ele é sueco e mora na Súecia). Ele me conta sobre o dia tranquilo e relaxante que tivera, e que fazia tempo desde a última vez que tivera um dia assim - Quando eu era criança, eu não me preocupava com investimentos e contas. Eu não me preocupava com planos e metas. Minha felicidade não estava no amanhã, mas no hoje. Às vezes, eu gostaria de voltar para aquele tempo e reviver aquela sensação.

Eu acho que esse dia vai voltar, Sami - aquelas palavras saíram da minha boca sem que eu pudesse pensar.
Tu acha? - ele perguntou.
Sim... minha tia disse que sim.
:)
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8 comentários:

  1. Amei sua crônica, Amanda. Linda mesmo.
    A gente sendo mais jovem às vezes não enxerga certas coisas que nossas madrinhas, avós, mães podem ensinar né? Eu sempre presto muita atenção nisso hoje em dia.
    ;)

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    1. E elas têm tanto para compartilhar, não é? Obrigada pelo comentário carinhoso! Um beijo, Julie!

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  2. oi, oi.

    eu adoro conversar com pessoas mais velhas pq saio da conversa com tanto aprendizado. <3

    o teu texto tá perfeito, e o que mais gostei dele foi de focar naquela história de "um dia de cada vez". as vezes a gnt fica contando sempre com o amanhã e deixa tantas oportunidades passarem...

    obrigado por compartilhar com a gnt essas reflexões tão bem escritas. <3

    bj!
    Não me venha com desculpa - Adriel Christian

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    1. Oi, oi, Adriel! Muito obrigada por sempre tirar um tempinho para passar aqui e deixar um comentário <3

      Simmm, essa questão do hoje, né? Nossa geração está batalhando e aprendendo a viver esse tal de hoje hahaha

      Um beijo!

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  3. Amei esse relato! De deixar o coração quentinho <3

    Estante da Pipoca

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  4. Amei suas tias e devo dizer que já estou na mesma vibe delas, só que aos 40. Linda a maneira que você relatou e ilustrou com essa foto toda trabalhada no aconchego.

    www.umnovodestino.com.br

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    1. Ahh que linda! Cada década que passa, uma nova mulher que surge! Eu sinto o passar da vida como algo lindo! Quero ter a benção de ficar velhinha com cabelos brancos! (Quer dizer... Eu já tenho bastante cabelo branco, mas tu entendeu o que eu quis dizer haha)

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