onde foi parar nossa escrita intuitiva?

Sábado de manhã. Estou tomando uma caneca enorme de café preto enquanto aprecio a brisa fresquinha. Eu levanto e abaixo minha cabeça; inclino para direita e para esquerda, procurando diferentes ângulos e pinturas que se formam na armação da minha janela. Se eu me curvo, vejo, na parte inferior, um delineado de copas de árvores e um manto cinza que domina 3/4 da tela; se volto à posição normal, a tela adquire um telhado acastanhado e triangular, com chaminés, antenas e janelinhas quadrangulares de sótão.

Estou escutando uma playlist com as sonatas de Tartini, que combina perfeitamente com a cidade onde me encontro: Versalhes. Faz alguns meses que só escuto música clássica, e eu não sei por que demorei tanto tempo para trazer esse gênero à playlist da minha vida. Quando escuto Chopin, Debussy, Tartini, Tchaikovsky, eu me sinto calma, leve e inspirada; sinto uma brisa romântica e poética pelos ares.

Estou fazendo toda essa descrição da minha manhã, pois ainda não decidi sobre o que quero escrever - só sei que acordei com essa urgência. Logo, enquanto minha alma não se decide, meu músculo da escrita começa a se aquecer descrevendo os arredores, técnica que aprendi com o livro The Right To Write, por Julia Cameron. Esse exercício faz, de fato, muito sentido, pois é como qualquer outro exercício físico: precisamos alongar e aquecer antes de começarmos.

Já faz alguns bons anos que blogo, e passei a maior parte desse tempo exigindo de minha própria escrita uma estrutura padronizada que sofri aprendi na escola para as ilustres redações do vestibular *revirando meu olho até o limite*. Eu não me permitia dar início a um post de forma aleatória como estou fazendo agora, somente porque me enfiaram goela abaixo que a primeira oração do primeiro parágrafo deve conter uma introdução do assunto que está por se desenrolar - sem contar todas as outras regras que me foram doutrinadas.

Eu passei uma vida escolar inteira aprendendo a escrever para o vestibular, e que eu provavelmente teria de escrever sobre algum tema que não me traz tesão algum, e que uma pessoa desconhecida, que faz parte de um grupo de pessoas desconhecidas, leria minha redação e me daria uma nota, julgando minha habilidade argumentativa, a qual deveria se apresentar harmoniosamente em fileiras de impecáveis bailarinas clássicas - plié, elevé, relevé.

O que aconteceu com nossa escrita intuitiva? Aquela que desperta no cerne do peito, urgente e inadiável. Onde foi parar aquela escrita que cruza a janela como um canário cantarolante e que continua a bater asas, dar piruetas e voar? Pássaros não nasceram para viver em gaiolas. Abra suas portas.
:)
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Comentários

  1. Oi Amanda! Nossa, super concordo/me identifico com você... Também já tive outros blogs e sempre enjoava porque em dado momento ficava "quadrado" demais, eu não conseguia simplesmente escrever. Quando desencanei mais disso, fluiu! E outra coisa que acredito muito é no poder dos diários.

    Beijos pra ti ♡

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    1. Simm! Morning Pages, né? Fazem a diferença! Parece que tudo começa a fluir :)

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  2. Engraçado, porque meu tipo de leitura e escrita preferida é assim, algo muito mais intuitivo.
    Talvez por eu não ter tido essas aulas tão rígidas de redação para vestibular, talvez por apenas gostar de escrever o que eu gosto... Enfim, achei bem interessante.
    E adorei seu blog, muito lindo!

    https://www.heyimwiththeband.com.br/

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    1. olá! tudo bem? o fato de tu não ter tido essas aulas é, potencialmente, uma benção hahaha. aulas de escrita e a gramática envolvida, ok! super bacana! mas não essa pressão para um determinado tipo de prova.
      obrigada por deixar teu comentário e volte sempre! beijinhos!

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  3. Lendo o seu post eu comecei a refletir sobre quantas vezes eu comecei o meu post de forma intuitiva e do nada voltei para trás porque não lembrei de fazer uma introdução e era uma coisa tão natural que nem ao menos percebia que eu tenho esse padrão.

    Amei o texto

    Beijos!

    https://mundinhoquaseperfeito.blogspot.com

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    1. exato! a gente acaba comprando a ideia de que todo e qualquer texto deve ser escrito com a fôrma de vestibular, enquanto a escrita sempre existiu, muuuuito antes do vestibular - muito antes de faculdades terem sido criadas durante a Idade Média haha

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