registros de uma promenade em Esvres-sur-Indre

Promenade: caminhada, passeio.

Eu e três amigos alugamos um carro e partimos em direção a Tours, uma cidade na região do Vale do Loire na França. Passamos 3 (quase 4) dias visitando jardins de castelos e pequenas villages. Não tivemos a graciosa oportunidade de entrar nos castelos, pois eles ainda estão fechados ao público devido à crise sanitária, maaas logo-logo eles reabrirão, então caso você esteja planejando um tour pela Vallée de la Loire, você vai poder desfrutar inteiramente da elegância e dos encantos desses pedaços de conto de fadas.


Eu comecei a escrever esse post (a primeira linha) ainda na cidade de Esvres-sur-Indre, mas fechei a tela do laptop, pois estávamos prestes a jantar, logo, estou dando continuidade a essas palavras num assento de metrô parisiense, enquanto me desloco para o trabalho. O local onde estou, o ar que respiro, o silêncio versus caos muda completamente minha produção criativa, e eu amaria estar escrevendo esse post no minúsculo centre-ville de Esvres.

Eu estava dando uma voltinha pelo centro ao entardecer de Sábado enquanto meus amigos conversavam e preparavam nossa janta. Eu precisava ficar um pouco sozinha no silêncio - silêncio esse que não se encontra pelas ruas de Paris. Eu estava completamente sozinha. Nessa promenade, encontrei apenas um homem que bebia uma cerveja sentado em um banco em frente ao bar - o único estabelecimento que encontrei aberto. Bonsoir, ele me disse, antes de beber mais um gole daquela cerveja. Bonsoir, eu respondi, e continuei caminhando. Fazia tempo desde a última vez que escutei o som dos meus passos com tanta limpidez. Escutei asas. Escutei pássaros que batiam suas asas. Seja na capital, seja no interior, pássaros batem suas asas da mesma forma, mas naquele silêncio singular pude notar o quão alto é o flap flap flap das asas de um pássaro.

Eu me senti renovada. Eu me senti sozinha. Eu me senti acompanhada. Eu quis chorar. Eu sorri. Uma libélula voou em direção aos meus olhos, e pude sentir suas asas batendo no côncavo entre minha sobrancelha e meu nariz. Escutei animais que não pude identificar escondidos entre um pinheiro robusto e arbustos. Eu renovei meu pulmão e pedi bençãos aos ares. Pedi à brisa que me ajudasse a ser mais leve e fluida. Pedi que levasse minha mágoas e que soprasse meu ego.

Esta igreja, Saint-Médard, se localiza bem no cerne da cidade, e eu fiquei literalmente boquiaberta quando soube que parte dela fora construída no século V. A primeira coisa que eu quis fazer foi tocar suas paredes, pensando que comunidades extremamente antigas passaram por ali e tocaram nas mesmas pedras que toquei, vivendo uma vida completamente diferente da minha. Uma vida medieval, provavelmente simples, bucólica, conservadora e cristã. Ou não. Apenas especulações. E como é bom me perder em especulações.

Mesmo crescendo em um ambiente familiar onde o catolicismo sempre fora algo presente e importante, eu não me identifiquei com a religião. Contudo, meu amor por igrejas vai além de religião e espiritualidade. Meu amor por igrejas é um amor por História e Arte. Meu pai e eu compartilhamos essa paixão da mesma forma, e sempre que encontro alguma capelinha ou catedral por aqui fico pensando o quanto ele amaria estar passando seus olhos pelos mesmos altares e vitrais.


Depois de fazer minha promenade pelo centrinho de Esvres, direcionei-me ao Airbnb pelo caminho do único bar aberto. O homem que bebia cerveja ainda estava lá, e me perguntou Vous attendez quelqu'un? (Você está esperando alguém?). Non, je fais la connaissance, merci, (Não, eu estou conhecendo o local, obrigada) eu respondi, e subi as escadas pensando que passei a vida inteira esperando por alguém.
:)
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Comentários

  1. você escreve e eu sinto os locais que você descreve <3 tenho parte do coração na frança. gosto de ler, de ver, e ler sobre aí. o seu texto foi uma surpresa boa para a minha semana.

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    1. Oi, Laryssa! Esse comentário deixou minha manhã dourada - obrigada! Vou tentar escrever um pouquinho mais sobre o que vejo aqui em Paris antes de voltar para o Brasil. Um beijo!

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