por que misturo (e amo misturar) português, inglês, francês e italiano


Se tem algo que eu aprendi morando na França é que eu jamais falarei minha língua materna do mesmo jeito. Não vou negar, é muito legal sentir essas transformações que começam no meu cérebro e que escapam pela minha boca. Eu enxergo os três idiomas que falo (Português, Inglês e Francês) como um diagrama de Venn, o qual representa os raros momentos que eu falo uma língua por vez, e os momentos que eu misturo dois ou três idiomas.

Morando na França há dois anos, aprendi que um idioma jamais será apenas um idioma purinho. É como um bolo de aniversário, onde o pão de ló é a língua, e a cobertura e os confetes são um invólucro de cultura e trejeitos. Você até pode encomendar um pão de ló purinho para festejar seu aniversário, mas qual é a graça?

Quando cheguei na França, eu conhecia apenas meia-dúzia de palavras como bonjour, bonsoir, merci, croissant, ça va? Isso foi maravilhoso, pois esse charmoso idioma me foi entregue como um bolo de aniversário, isso signfica que cada palavra e expressão que eu absorvia vinha coberta de caras e bocas, hand gestures e intonações. E lidando com esse pacote diariamente, senti uma transformação na forma como penso e expresso minha língua materna.

Quer uns exemplos? Adoramos exemplos, não é? Ok. O meu diagrama de Venn funciona da seguinte forma:
1. Bá, essa série é tri legal!
2. Yeah, I'm fine. How about you?
3. Oui, il fait beau aujourd'hui.
4. Meu hand gesture mudou desde que vim para a França.
5. Ele só faz n'importe quoi.
6. En fait, we could have an apéro ce soir.
7. Você não trouxe eggplants? Ah, c'est pas grave.

É como se algumas palavras fizessem muito mais sentido em outro idioma, então acabo fazendo um mélange com aquilo que chega primeiro a minha mente. De vez em quando, eu sinto uma maior conexão com brasileiros que também falam esses idiomas, pois eles entendem o que estou falando, e, assim, eu não preciso ficar selecionando apenas palavras em Português. Isso também mudou a forma como eu escrevo, e é por isso que você vai encontrar umas palavras em Francês e Inglês no meio dos meus posts.

Isso me leva a pensar na forma como dialetos surgem em comunidades imigrantes como, por exemplo, os italianos que migraram para várias partes do mundo e, principalmente, o sul do Brasil. Meus bisavós vieram da Itália, Vêneto, e falavam apenas Italiano quando se estabeleceram no Rio Grande so Sul. Esse idioma passou para meus avós, que tiveram que aprender Português na marra. Essa mistura de Português-Italiano passou para meus pais, que sempre carregaram seu dialeto italiano como um tesouro precioso. Eu cresci ouvindo esse dialeto em casa, mas absorvi apenas uma pequena parte dele, pois meus pais não usavam o dialeto para falar conosco, filhos, mas com os mais velhos.

Eu cresci falando palavras que meus amigos não entendiam, então parei de usá-las por um determinado tempo, pois elas "não faziam sentido" em nossas conversas. Occhiai (óculos), sdionfa (satisfeita de comida), vecchio (velho), potchar (mergulhar comida em líquidos, como biscoito no café e pão no molho), pipa (barril), can (cachorro), pistolin (o tiquinho de meninos). Quando o assunto era comida, surgiam palavras como codiguim, fortaia, formaggio, polenta brustolada, minestra, vino, grappa.

Cresci em uma casa onde minha mãe falava Amanda, vai lá em cima buscar meus occhiai; onde falávamos tô sdionfo/sdionfa após terminar uma boa refeição; onde jogar tre-sette era o programa mais aguardado de Domingo; onde nos reuníamos para escutar as canções do folclore italiano cantadas pelos mais velhos. Acho que é por isso que eu amo, e sempre amarei, esse mélange linguístico e cultural.

2 comentários:

  1. te entendo perfeitamente porque meu cérebro funciona desse jeito aí. quando falo com outros brasileiros expats, sei que posso misturar o inglês com o português sem medo pq sei que eles vão me entender e não vão pensar "olha só que metida ela". é que realmente tem umas palavras que chegam primeiro em outra língua e muitas vezes nem têm uma tradução perfeita, então faz muito mais sentido falar na língua que ela surge na cabeça. fora a quantidade de vezes que eu esqueço palavras em todas as línguas hahahhaha

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    1. Às vezes eu tenho medo de parecer metida... mas essa mistura de línguas é tão natural e tão divertida. É tão bom saber que outras pessos se identificam com essas situações haha
      Sim, algumas palavras vêm em outras línguas primeiro, e outras nem vem hahahhahaha

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