minha infância, poder criativo e sou escritora


Eu sempre gostei muito de criar. Desde minha infância, eu sempre tive essa necessidade de estar em um processo de criação. Como meus pais não me obrigaram a fazer várias atividades extracurriculares ao longo do dia, eu tive bastante tempo de sobra e tempo sozinha para ficar entediada e, consequentemente, aparecer com alguma ideia mirabolante. E acredito que isso é o oposto do que eu vejo em algumas famílias, cujas crianças estão quase tendo um burnout aos 10 anos de idade, pois saem do colégio e vão direto às aulas de instrumentos, línguas, desenho, esportes e por aí vai. É claro que ter acesso a esse monte de atividade interessante é um privilégio, mas é como tudo na vida: o que é demais faz mal.

Quando criança, eu fazia Inglês, que sempre foi imperativo, e o handebol, o qual eu levava muito a sério. Eu gastava 4h semanais com tudo isso, então todo o resto do tempo era livre. Nesse tempo livre, eu fazia várias coisas, mas eu tenho bem viva a memória de estar mergulhada na coleção de enciclopédia da Larousse, nos livros de biologia e do sistema solar, nos infinitos e nostálgicos álbuns de fotos e, principalmente, desenhando. Eu também joguei muito videogame e assisti muita televisão, mas eu sabia que era muito mais emocionante estar com a mão na massa, pé na grama, cara na tinta.


Passei muito tempo brincando sozinha com legos, cartas, quebra-cabeças e crafts. Eu assistia ao Mundo de Beakman e já queria criar um foguete. Minha mãe me disse algumas vezes que eu gostava de silêncio, e se meus amigos começassem a fazer muvuca, eu pegava meu jogo e sentava num canto sozinha hahaha - aquariana? Também lembro de passar muito tempo no sítio da minha avó, com a camiseta toda suja de terra, tirando fotos dos porcos, abraçando e beijando pombas brancas (eu sei... estranho), chupando cana-de-açúcar e fazendo waffles com minha avó, quer dizer... ela fazia, eu comia haha. Que infância boa.

Eu amava escrever. Minhas mãos sempre carregavam um bloquinho e uma caneta. Era tudo o que precisava. Um bloquinho e uma caneta. De vez em quando eu gostava de me esconder em caixas, mas a sensação de um bloquinho e uma caneta era quase como infinita. Tudo o que eu poderia criar! Os diálogos, as roupas, as casas, os planos para me vingar do meu irmão mais velho (haha). Eu podia fazer tudo com apenas um bloquinho e uma caneta.

Na adolescência, comecei a tocar violão e cantar (mal, mas nada me impedia de cantar). Eu compunha canções e fazia umas melodias meia-boca. O importante nunca foi a melodia em si, mas o que eu estava comunicando através daquelas palavras. Foi então que eu parei de compor músicas, pois havia descoberto onde minha poesia se encontrava. Eu escrevia poemas melancólicos. Sempre gostei dessa melancolia, por mais feliz e regada de amor que eu fosse. Poemas melancólicos tocam uma parte dentro de mim que me assusta e me inspira. É como se eu tivesse medo e aflição, mas por causa da criação, esses sentimentos se transformavam em versos bonitos. Um desabafo poético.


Eu não me permitia criar um blog e compartilhar tudo aquilo na internet por pura insegurança. Eu demorei para criar meu primeiro blog, que nasceu em 2016, e desde então, criei vários blogs diferentes, pois ainda estava aprendendo como funcionava essa blogosfera e o que eu estava disposta a compartilhar. O meu primeiro blog foi um arsenal de crônicas com experiências bem íntimas que eu tinha vivido. Eu ainda devo ter esses textos guardados em algum lugar, e vou tentar resgatá-los só para comparar a forma como as Amandas de 2016 e 2021 se comunicam.
Apesar da escrita sempre ter feito parte da minha vida, eu nunca tinha me visto como escritora, tampouco minha família. Eles sempre me viram como a artista da família, mas nunca me incentivaram de fato a criar uma carreira em cima da escrita ou da arte - o que é compreensível. Eu achava que para ser considerada escritora, eu deveria fazer uma renda que vinha 100% da escrita; ter um contrato com alguma empresa para a qual eu escreveria. Eu achava que para ser escritora, eu precisaria publicar um livro. Eu não sabia que somente o fato de escrever com frequência faria de mim uma escritora.


Faz pouco tempo que eu comecei a me desvencilhar dessa ideia de que um escritor deve ganhar dinheiro com a escrita. Eu comecei a me enxergar (a me sentir) escritora há pouco tempo, e isso teve início quando minhas amigas começaram a me ver como escritora/blogueira/poeta. Eu fiquei sabendo que elas falam de mim me apresentando como a amiga blogueira/escritora. E foi a partir daí que essa revolução começou a faiscar dentro de mim. É incrível o poder que o olhar do outro pode ter sobre nós mesmos... É incrível como o olhar do outro pode confirmar o que você mais detesta e mais ama sobre você mesmo.

Quando eu digo sou escritora, não faço isso para o outro, mas para mim mesma. Eu sempre quis usar esse rótulo, pois eu sempre senti ele como parte de mim. E se me sinto escritora/blogueira, por que eu não consigo verbalizar isso sem hesitar? O que está me prendendo? O que está me impedindo de sentir essas palavras na boca e me afirmar como tal?

É tudo parte de um processo :)

Comentários

  1. Oi Amanda! Sem dúvida, vc é uma escritora e das boas. Acho suas palavras muito fluidas e diretas. No fim das contas a gente carrega essas inseguranças muitas vezes partindo de suposições alheias que de repente nem existem. São inseguranças nossas. Tbm tento enfrentar meu medo nesse meu lado mais artista/criativo, mas ainda não consegui verbalizar diretamente "sou isso". Inclusive, comecei a ler um livro chamado O caminho do artista pra começar a refletir sobre esses medos mais a fundo.

    Continue sempre em frente! Abraços 😘

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    1. Oi, Lizandra! Tudo bem? Primeiro de tudo, obrigada por passar aqui e deixar esse comentário <3 E obrigada por dizer que sou uma escritora e das boas hahaha, esse é o tipo de comentário que nos dá mais força e coragem!
      Todas nós temos essa insegurança, né? Medo de não sermos levadas a sério ,ou medo de que as pessoas não gostem do que estamos compartilhando, mas é aquilo né... não dá para agradar a gregos e a troianos, né? Por isso é importante lembrar de agradar a si de vez em quando hahahaha. Eu acho que um dos meus receios é a futilidade. Tenho medo de estar compartilhando coisas fúteis, com tanto assunto importante que deve realmente ser discutido, sabe?
      O caminho do artista! Vou pesquisar! Obrigada!
      Um beijo!

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  2. Ai, amei esse texto e me identifiquei demaaais! Também fui essa criança entediada & criativa (além do inglês e aula de dança, meu tempo era bem livre e foi assim que nasceram meus primeiros blogs, lá em 2010). Foi assim que me envolvi com o design, a escrita e a fotografia - que, atualmente, de uma forma ou outra fazem parte do meu trabalho e da minha vida. Vivi um pouco dessa dificuldade de me identificar como escritora e fotógrafa por um tempo, mas foi também pela fala de amigos que isso foi mudando (bem... está mudando. Processo, né? Hahahah).

    Beijos!
    A Menina da Janela

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    1. Eu super te entendo, Laura! E esse processo, esse insight, essa consciência parte de dentro da gente, sabe? É claro, aquilo dos amigos e a forma como o outro nos vê faz muita diferença, mas de pegar e assumir esse rótulo, essa paixão, leva tempo. É super gostoso quando começamos a passar por essa transição :)

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