ansiedade e uma coleção de conchas


Isso daqui que eu estou sentindo não é normal. Normalmente, eu consigo me colocar numa bolha e viver de boinhas, priorizando minha saúde mental e recarregando sozinha minha barrinha de energia vital - tipo aquela barrinha do The Sims, sabe? Porém, eu venho sentindo uma ansiedade, um peso no peito e uma vontade de fugir de todo mundo e das redes sociais. Eu ando tão sumida do whatsapp e instagram que chego a ser rude. Eu demoro dias para responder minhas melhores amigas, e até mesmo minha mãe. Eu fico só imaginando a ansiedade dela do outro lado do oceano Atlântico - o que só me gera mais ansiedade.

Olha! Olha eu ali tentando manter o rosto acima da superfície da água, tentando respirar sem me engasgar com toda essa ansiedade. Olha! Olha eu ali batalhando para sobreviver mais esse dia e ainda tentando manter a postura. Minha mão está erguida para fora da água como quem grita SOCORRO!, mas quando alguém vem querer me dar a mão, meu ego me boicota e fala assim Querida, eles não podem saber que você está afogando. Finge que está acenando. Dá um sorrisinho simpático e faz um OK com dedão e indicador. E eu faço um OK.

Aqui no banco do metrô, eu estou me perguntando Eu sou feliz? Assim. Direto. Sem rodeios. Eu nunca achei que fosse me fazer esse tipo de pergunta, pois eu sempre fui super alegrinha - eu sempre fui a alegrinha do grupo. O que está acontecendo comigo? Se sou feliz? Eu não cheguei a uma resposta hoje, e seria um tanto quanto injusto se eu desse uma resposta para tal pergunta justo hoje, já que eu não tive um sono decente noite passada. Sera que é falta de sono?

Eu não aguento mais esse metrô. Estou no metrô de novo - de novo! A mulher sentada bem aqui na frente ainda não se deu conta do quão inconveniente é o flash branco que pisca forte como um holofote bem no meio do meu olho toda vez que ela recebe uma notificação. Por quê? Por quêeeeeeeee? Para início de conversa, quem foi que criou esse aviso de notificação? Uma pessoa foi paga para criar esse aviso que rasga meu olho, e eu nem estou em um clube de dança! Mais um flash? Eu vou trocar de lugar. Não sou obrigada.

Os metrôs aqui em Paris são barulhentos demais, mas devo admitir que eles até são agradáveis quando comparados aos metrôs de Londres - aquilo ali sim é o inferno. Eu sou muito sensível a barulhos, e eu já mencionei por aqui que eu tenho Misofonia, um quadro de aversão a sons que é mais sério e complexo do que você está pensando.

Às vezes, tudo o que eu quero é jogar aos ares o que não ressoa mais comigo e ir morar na praia, mas não pelo verão, e sim pela baixa temporada. Pelo entardecer na areia fresquinha. A brisa que limpa os pulmões. Um mar que vira céu naquela linha distante. A água que bate na canela enquanto os pés afundam areia abaixo, e eu os afundo cada vez mais, pois quero sentir terra, água e lama limpando entre meus dedos.

Quando eu me sentir sozinha, triste, ansiosa, estressada, vou caminhar pela beira com um blusão quentinho e uma saia longa, molhada pela água, gelada pelo vento. Eu vou chorar. Seja em Paris, seja em Villefranche-sur-Mer, eu sempre vou chorar, mas enquanto minhas lágrimas fizerem parte do mar, eu sempre poderei encontrar uma concha. Poderei acariciar sua superfície rugosa. Admirar seus tons pálidos. Notar que está faltando uma lasquinhas, e logo me dar conta de que lasquinha alguma está faltando, pois nada é indestrutível, e essa concha é só mais uma prova de que eu também não sou. Minhas lascas estão por aí, assim como as dessa conchinha, e isso é perfeitamente normal. Eu poderei carregar essa concha com cuidado entre as palmas das minhas mãos e dar início a uma coleção de conchas no canto da minha escrivaninha. Uma beleza que nasceu da minha tristeza. Meu Nascimento de Vênus.

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