alívio às almas de minhas mães e de meus pais


So give the soul that passed down from your mothers a chance to try out life in you. As a custodian for the soul passed down through your mothers, you might make it a little easier for it this time around. This is the first time in generations it can rest, or decide with true liberty what it will do. So why not treat it with real tenderness? It has been through so much already - why not let it rest?

Tradução: Portanto, dê à alma que veio de suas mães a chance de experimentar a vida em você. Como guardiã da alma transmitida por suas mães, você pode transformar isso um pouco mais fácil desta vez. Esta é a primeira vez em gerações que ela pode descansar, ou decidir com verdadeira liberdade o que fará. Então, por que não tratá-la com verdadeira ternura? Ela já passou por tanta coisa - por que não deixá-la descansar?

Livro: Motherhood - Sheila Heti

Depois que terminei de ler esse parágrafo, eu fechei o livro e chorei. Apenas chorei. Tudo o que sou - e que não sou - é reflexo, por parte, do sangue e das marcas que herdei de meus antepassados. E eu aqui, tentando ser diferentona; um fruto que não quer cair perto do pé. Sou uma pessoa bem aberta à espiritualidade, mas eu nunca tinha parado para pensar (tirar um tempo para pensar com calma) que eu carrego uma bagagem dos meus antepassados, querendo ou não, sabendo ou não.

Essa bagagem guarda dores, lágrimas, medos, lamentos. Essa bagagem guarda força, perseverança, cantorias, coragem, gratidão. Acho que carrego essa mala desde meus primeiros dias no útero da minha mãe. É como um daqueles objetos preciosos que passam de geração em geração. Um anel de casamento. Taças de cristal. Uma mala. Eu imagino essa mala de couro marrom escuro, grande, retangular, antiga, pesada e muito viajada, segurada pelas várias mãos de meus antepassados, que formam os galhos da minha árvore genealógica.

Eu não sofri a pobreza dos imigrantes italianos em meados de 1870, mas será que minha bagagem pesada e viajada ainda guarda as marcas dessas voltas? O que carrego em bolsinhos escondidos? A dor da imigração de meus bisavós? A esperança de uma vida melhor do outro lado do Atlântico? Eu sou a luz de minhas mães e de meus pais, e assim sendo, sou também suas sombras.

Minha vida é muito mais fácil, leve e livre do que a de meus antepassados. Mais feliz? Duvido muito. Meus pais experienciaram felicidades que não sou capaz de compreender, que talvez eu nunca compreenda. Pode ser que algumas delas eu venha a compreender, cada felicidade ao seu tempo, com mais e mais idade. Hoje em dia, eu e meu pai não conversamos muito, um resquício de uma relação muito conturbada durante minha adolescência e jovem-adultez, mas eu lembro bem dele dizendo Tu ainda és muito jovem para entender, e ele nunca esteve tão certo e tão errado ao mesmo tempo.

De toda forma, isso aqui nunca foi uma competição de quem sofreu mais, de quem sorriu mais, mas se tenho alguma certeza nessa vida é de que eu tive muito mais escolhas do que meu antepassados, do que meus próprios pais, e esse é um bom motivo para agradecer. Posso estar enganada, mas acredito que sou a primeira geração que pode fazer escolhas com o coração. Sou o primeiro galho dessa árvore genealógica que ramificou sem medo de quebrar, e somente pude fazer isso pois minha árvore já era forte o suficiente para suportar um galho meio torto. Eu quero dar alívio às almas de minhas mães e de meus pais. Quero viver leve. Quero viver com carinho e cuidado, por mim e por todos eles.

Comentários

  1. Uau! Isso me lembrou de um poema da Rupi Kaur que outrora li, que seguia a ideia mais ao menos assim "não culpo que minha mãe não seja a mais compreensível com o mundo moderno, uma vez que ela dedicou-se quase por toda a vida dentro de fábricas e trabalhos árduos para me dar uma vida totalmente oposta da dela" e eu também chorei ao ler isso. De fato, temos maior liberdade de escolha e quando me identifiquei com esse texto da Kaur pensei na minha mãe. Pensei que além de gente, ela é uma vida. Ela nunca fez faculdade, abriu mão de mil e um outros sonhos só pra que me criasse, investisse em mim e na pessoa que sou hoje, pra que nada nunca me faltasse. Quando a olho hoje, e quando ela me pede ajuda para mexer no celular, a atitude típica de um adolescente ou jovem-adulto prontamente seria irritar-se, mas não. Hoje a vejo com amor, e que eu também posso fazer muito por ela, ainda que não se compare ao tempo que ela se dedicou pra mim, somos bases de um mesmo chão. Isso me amadureceu demais. Amei o texto e estou curiosa para dar uma olhada nesse livro. Um cheiro.

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  2. "Sou o primeiro galho dessa árvore genealógica que ramificou sem medo de quebrar"

    meudeus o peso dessa fraaaaase, mulher! ♥ consigo dizer mais nada! ♥

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