aprendi a estipular metas de forma amigável


No dia 26 de Dezembro de 2020, dei início a uma implementação de hábitos de uma forma que eu jamais imaginei alcançar: sem julgamentos. Passei boa parte da minha vida sendo ou oito ou oitenta; desenvolvendo projetos em uma alta frequência e intensidade, ou simplesmente não fazendo coisa alguma, como aquela vez que tentei implementar uma dieta vegana + gluten-free ao mesmo tempo da noite para o dia - HAHAHA. E quando esses desafios insanos falhavam por apenas um diazinho, eu largava tudo de mão e desistia completamente, como se os resultados apenas viessem depois de uma longa e ininterrupta jornada de disciplina, foco e sofrimento. Eu não acreditava nos longos e graduais processos. Eu queria milgares. Eu queria ser outra Amanda ao acordar.

Enquanto todo mundo listava suas resolutions para o ano de 2021 com a intenção de começá-las em 2021, eu, no dia 24 de Dezembro, decidi que começaria para já, antes mesmo da virada do ano, pois eu precisava dessa mudança de hábitos, eu precisava me reconectar e realinhar os chakras. Eu acordei cedinho sem despertador, com aquele ânimo de quem está prestes a iniciar um projeto novinho em folha, com um bichinho contente que rebola dentro do peito e canta That's the way aha-aha I like it aha-aha! Saltei da cama, subi as persianas das janelas da sala, lavei meu rosto com todo amor e carinho, e fui preparar uma caneca de bem-estar, conforto e contentamento - alguns chamam de café preto.

Fui para a sala toda contentinha e me aconcheguei no cantinho esquerdo do sofá, perto da janela e de uma planta que chamo Matilda. Peguei o livro Motherhood (Sheila Heti) e continuei a ler uma página que estava on hold por algumas semanas. Eu estava inaugurando um dos primeiros itens da minha lista de resoluções: ler 10 páginas todos os dias. Todos os dias.

Alguns podem pensar Nossa, mas só 10 páginas? Eu leio bem mais do que isso. Bem, eu não entendo muito bem como eu funciono quando se trata de leituras. Tem vezes que eu devoro livros como se eu estivesse com fome, com o estômago doendo de tanta fome por conteúdo e experiências. Tem vezes que eu passo três meses sem ler um livro.


Ler faz meus dias valerem a pena, eleva minha energia, dá vida e rega meu jardim, fortalecendo meu caule suculento, avisando meus brotinhos que é hora de florescer. Ler é o tipo de atividade que me refresca, mas que por puro cansaço e portergação eu acabo deixando de lado. Essas 10 páginas não são um desafio cansativo e enlouquecedor, mas um hábito que vem para ficar de forma harmoniosa e amigável.


Levei nove dias para terminar de ler Motherhood - que glória. Eu não sei qual é a melhor sensação: comprar um livro novo em uma livraria antiga, como a Shakespeare & Company no arrondissement 5 de Paris, ou a sensação de ler as últimas palavras do último parágrafo da última página, fechar a contracapa, segurar o livro com as duas mãos, olhar as nuvens através da janela e suspirar. Apenas suspirar.


Depois que tive esse orgasmo literário, emendei no segundo livro que estava on hold na minha estante: Can We All Be Feminists? Seventeen Writers on Intersectionality, Identity and Finding the Right Way Forward for Feminism. Em alguns dias estarei tendo mais um orgasmo.


Acontece que a vida é uma inconstância, e a única coisa que parece não mudar é essa minha vontade de querer controlar tudo o que eu faço, como se eu vivesse em uma bolha onde apenas eu definisse os desfechos do meu cotidiano. Eu falhei alguns dias com minha segunda resolução: vestir um tênis de esporte e ir caminhar na rua por pelo menos 20 minutos todos os dias. Todos os dias. Foi aqui que eu me dei conta do quão insensata sou. Tem dias que simplesmente não dá para ir caminhar, ainda mais vivendo em uma Paris em meio à pandemia, onde o couvre-feu (toque de recolher) fica cada vez mais apertado e restritivo.


Para me manter motivada e ciente das pequenas conquistas, fiz um calendário onde anoto tudo o que fiz, o que não fiz, sinais de evolução. Livre de julgamentos - na maior parte do tempo - e mantendo justas expectativas me motiva a persistir nesse projeto, diferentemente das outras vezes em que eu jogaria tudo aos ares, desistindo logo na segunda semana.


Minha meta era 10 páginas por dia, mas há dias que eu leio 20, 25. Minha meta era caminhar por pelo menos 20 minutos, mas o tempo passa e às vezes não me dou conta de que já fiz 40 minutos - e correndo pela maior parte do trajeto! Poucos dias se passaram desde que dei início a esse projeto e já estou lendo mais rápido, minhas pernas estão mais firmes, meu fôlego pode finalmente ser chamado de fôlego, e meus pimentões vermelhos ambulantes podem finalmente ser chamados de bochechas.

Comentários

  1. Primeiramente, adoro a sua escrita.

    e depois, talvez este seja mesmo o segredo da vida fluir melhor: "Livre de julgamentos - na maior parte do tempo - e mantendo justas expectativas me motiva a persistir nesse projeto, diferentemente das outras vezes em que eu jogaria tudo aos ares, desistindo logo na segunda semana." Parece que ser radical demais não costuma dar muito certo, mas ser gentil com a gente, não forçar as coisas, e ao mesmo tempo AGIR, como podemos, naquilo que queremos priorizar é sempre um bom caminho.

    Abraços Amanda ♥

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  2. Ahhh como prometido, vim aqui deixar um comentário. Deixei um recado pra ti no insta há um tempo atrás! Pois bem, eu amo muito o conteúdo que tu posta aqui pois ressoa muitos pensamentos que tenho sobre maternidade, meu bem estar, pra onde vai minha atenção, sobre a vida. Aquele se post sobre intenção vire e mexe leio ele, muito inspirador. Você escreve de forma muito poética e visual! Descobri que esse livro da maternidade tem uma edição em PT, ja comprei o ebook. Obrigada pela dica. E menina esse assunto de metas é uma delicia. Eu mesma funciono muito bem com elas, adoro ver meu progresso e dizer que sai de um ponto e cheguei a outro. Aprendi na terapia isso que você disse sobre achar que um dia que não cumpre a meta é motivo para jogar tudo para o alto. Estou tentando uma educação alimentar, não chamo de dieta ou reeducação por que é uma mudança de hábito mesmo que quero implantar e assim como vc comecei em dezembro. Pensei, ah que cliché começar dia primeiro rsrs Vou começar dia 27 (quando acabou as comidas de Natal rsrs) E vamos que vamos. E viva essa trajetória que é nos fazer bem, ajustando aqui e ali, todo dia. E continue a nos embriagar com sua sabedoria rsrs

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  3. Ano passado eu estava louca para começar um projeto de ficar sem fazer compras por um ano, e eu não queria esperar até 2021, porque eu estava precisando daquela mudança naquela hora, e comecei em novembro o projeto em novembro mesmo haha Quando o assunto é metas, acho melhor ir aos poucos do que não ir.

    Vanessa
    tristezinhas cotidianas.blogspot.com

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