meio clichê, mas é real


Eu passei boa parte da minha vida imaginando um futuro hipotético, sentindo o prazer ilusório de um amanhã cintilante; o prazer que se deprime quando acorda e se depara com a realidade. Assim passei vários dias da minha adolescência e jovem-adultez, e eu estaria mentindo se dissesse que isso é coisa do passado, pois ainda me perco em devaneios de um futuro ideal. Contudo, devo dizer que eu ando mais controlada, menos cabeça nas nuvens, mais pés no chão.

Esse alívio projetado em um futuro radiante me faz lembrar da antiga civilização egípcia e sua crença inabalável no afterlife. Para eles, a recompensa não se encontrava no agora, mas na vida pós-morte, portanto escreviam o Livro dos Mortos, um registro em rolos de papiro que ajudava o falecido em sua trajetória para o outro mundo. Uma das cenas que mais gosto do Livro dos Mortos é a psicostasia, momento em que o coração do falecido é pesado em uma balança: seu coração em um prato, e do outro lado, uma pena de avestruz, representando o coração da deusa Maat. Se seu coração fosse tão leve quanto a pena, o falecido poderia se juntar ao glorioso afterlife.

Livro dos Mortos de Ani

Em uma primeira reflexão, essa ideia me parece um pouco absurda, mas em uma segunda reflexão me dei conta de que estamos vivendo da mesma forma, mesmo que em uma escala bem menor - e bem menos poética. Em vez de preenchermos nosso cotidiano com os pequenos deleites que se encontram ao nosso alcance, focamos nos pequenos e grandes deleites que ainda não possuímos. Em vez de depositar toda nossa paixão e energia no agora, na pessoa que somos hoje, no que temos para hoje, depositamos nossa energia em um "aftertoday" que nada preenche - apenas drena.

Eu sei que essa história toda parece um clichezão sem fim, mas esse é mais um daqueles conhecimentos que ilusoriamente achamos que conhecemos. Se você já está cansado de saber que devemos viver o agora de forma plena, por que insiste em pensar que sua felicidade se encontra no amanhã? Mas e hoje? O que te faz feliz hoje? Acho super importante ter um olhar otimista para com nossos próximos passos, mas ser feliz amanhã não é igual a ser infeliz hoje - entende o que eu quero dizer?

Há alguns dias atrás, eu me dei conta de que estava, mais uma vez, projetando minha felicidade no futuro, enquanto era sugada por um furacão de drama, comparando minha realidade atual, com um paralelo idealizado que existe na minha cabeça. Nesse paralelo, eu tenho, vivo e sou coisas que não encontro em minha realidade atual, porém, em um súbito momento de iluminação, consegui fugir do furacão e percebi que tudo o que tenho, vivo e sou hoje faz parte de um paralelo com o qual sonhei e idealizei há muitos anos atrás.

Eu lembro como se fosse ontem o quanto eu sofria por querer estar exatamente onde me encontro hoje, então por que eu simplesmente não reconheço e usufruo dessa vida que finalmente conquistei? Ser ambicioso e querer cada vez mais pode ser algo fantástico, mas até que ponto? Não quero essa ambição que turva meus olhos, mas uma ambição leve - tão leve quanto a pena de Maat.

Um comentário:

  1. mais um post maravilhosooooo! aliás, ele me lembrou um diálogo do filme "soul" que acabou de ser lançado, acho que você vai gostar de assistir, fala muito sobre nosso propósito aqui na terra, sobre ansiedades e aproveitar a vida que temos hoje. por mais que seja um filme "infantil" a pixar me fez chorar demais com muitas reflexões, hahaha.

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