quase 28, Michelangelo, alma, beleza e verdade


"A vingt-quatre ans, Michel-Ange révèle son génie de sculpteur et la profondeur de sa méditation sur le mystère eucharistique." - Revista Le Figaro, Michel-Ange, le corps et l'âme. Tradução: Aos 24 anos, Michelangelo revela sua genialidade como escultor e a profundidade de sua meditação sobre o mistério eucarístico. Eu fechei a revista e fiquei encarando o assento encardido logo a minha frente dentro do metrô. Aos 24 anos, Michelangelo dá corpo e alma à Pietà, um dos grandes trabalhos da escultura Renascentista, que se encontra exposto no Va-ti-ca-no. Sigo encarando aquele assento encardido e me dou conta de que o meu deve estar tão sujo quanto. Eu só não parei de ler a revista porque paguei 12,90 € nela, e porque me interesso pela forma como Michelangelo transformou mármore em espírito.

Em Janeiro estarei completando 28 anos. Eu me dei conta disso enquanto analisava meu reflexo nos espelhos de algum prédio em La Défense. Eu estava bem-vestida, meu cabelo estava preso em um penteado bagunçado-charmoso, e minhas pernas desfilavam na mesma confiança das pernas de Beyoncé em Crazy In Love. Estou na minha fase ovulatória. Meu poder é palpável, meu pensamento está rápido, sinto sede de conhecimento e quero ler tudo o que posso, alimentando minha criatividade que explode em fogos de artifício. Eu também quero transar. Transar muito. Eu me sinto culpada por estar flertando entre olhares sutis com homens casados que encontro pelas ruas.

Já faz anos que eu passo por essa fase do meu ciclo menstrual, mas dessa vez foi diferente. Eu já sabia disso, mas dessa vez eu realmente compreendi que estava mais perto dos 30 do que dos 20, e eu me senti bem. Eu me senti leve e verdadeira. Foi a primeira vez que experimentei a sensação de pertencimento e de autenticidade. Toquei meus braços e meu pescoço, e eles eram meus. Assisti às imagens que minha mente formava, e elas eram todas minhas. As batalhas e os julgamentos. As vitórias e os desejos. Aquilo tudo era meu. Eu era eu. Eu me senti maravilhosa, mesmo nunca tendo feito algo extraordinário como uma escultura para o Vaticano. Eu nunca nem fiz uma escultura. Pelo menos já visitei o Vaticano.

Quando criança, eu jogava um daqueles jogos bobos que aprendemos nos anos 2000. Nesse jogo em questão, estabelecemos a idade que vamos nos casar, então "descobrimos" de forma randômica quem seria o marido, quantos filhos teríamos, onde moraríamos e que carro teríamos. Joguei esse jogo incontáveis vezes, mas lembro que eu sempre (sempre!) dizia que casaria com 21 anos. É incrível a mente de uma criança.

Eu acharia super bacana casar. Tem algo que me excita quando penso no meu futuro marido se referindo a mim com a locução nominal minha esposa. Algo excita meu ego só de imaginar que aos olhos alheios sou vista como esposa de alguém, e que alguém é visto como meu marido. Eu acharia super encantador casar, mas isso não está na minha lista de prioridades nos meus quase 28 anos.

Minha prioridade não é ter uma escultura exposta no Vaticano, tampouco fazer uma escultura. Gostaria eu de fazer algo extraordinário - aos olhos alheios? Sim. Meu ego me persegue e grita por reconhecimento. Aposto que Michelangelo não sabia que seu nome faria parte de qualquer matriz curricular de História da Arte, e que seu fresco A Criação de Adão seria a base de muitos memes no início do século XXI.

Conheci recentemente uma jornalista sueca que escreveu um livro sobre a vida de seu namorado, e por motivos de segurança, adotou um pseudônimo. Eu tive que perguntar para ela como é a sensação de escrever um livro (um baita livro!) e não esperar o reconhecimento de leitores afora - exceto amigos e pessoas próximas. Ela, tão doce e delicada quanto os saffron buns que ela mesma havia assado para nosso fika delicioso, responde que não queria reconhecimento, mas que a história de seu namorado fosse contada.

Eu, entre uma mistura de admiração para com seu desejo puro de contar uma história, e de revolta para com meu próprio ego, entendo sua resposta, mas não sou capaz de compreendê-la. Meu ficante/boy/rolo/pessoa-com-quem-me-relaciono-no-momento se volta para mim e pergunta você quer reconhecimento? Eu respondi que sim - óbvio que sim.

No auge dos meus quase 28 anos, ser honesta e abrir o jogo comigo e com as pessoas a minha volta tem sido pura Renascença. Não é nada extraordinário, mas simplesmente maravilhoso. Esses dias eu estava comentando com minha amiga Carol sobre as maravilhas que um simples diálogo sincero pode desencadear. Eu contei para ela que minha nova moda é fazer algo sozinha toda vez que fico braba com alguém. Eu vou tomar um banho, faço um chá, respondo uns emails. Eu penso um pouco. E mais um pouco. Às vezes eu choro de raiva. E quando estou mais tranquila, volto para junto da pessoa em questão e explico o que havia me incomodado de forma nua e crua. Sem abusar, nem me calar. Aquilo que dizem sobre ter um chakra laríngeo balanceado.

Eu ando sendo tão sincera, mas tão sincera, que há alguns dias atrás eu olhei para a pessoa-com-quem-me-relaciono-no-momento e disse às vezes eu sou um pouco manipuladora e tenho um comportamento passivo-agressivo. Ele respondeu que já havia notado. Eu pedi desculpa. Ficamos bem.

Michelangelo esculpiu mais do que apenas uma beleza idealizada (e corpos mais fortes e escultóricos do que o necessário). Ele deu alma e verdade à matéria-prima. Acho que essa é minha prioridade no auge dos meus quase 28 anos.

Comentários

  1. amanda, amo a forma que você escreve. com tanta sinceridade, liberdade, enfim. amei ler esse post sobre você e fazer paralelos sobre mim mesma aqui dentro da minha cabeça, haha. acho que essa sinceridade de se mostrar quem é, ser fiel aos seus desejos e ambições, é uma das melhores coisas que podemos fazer por nós mesmas, melhor forma de sermos artistas da nossa própria vida ♥

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  2. Venho lendo seu blog desde o dia que vi uma thread no twitter. Já conversamos sobre isso no instagram, espero que lembre. Mas esta é a primeira vez que deixo um comentário, não sei o motivo de minha imensa demora.
    Em meus 34 anos de vida, já dei voltas demais, não é mesmo? Sei bem como é encarar o espelho e, aos poucos, ver surgir uma outra pessoa. Espero que seus olhos ainda guardem muito da criança que foi. Acho essencial para enfrentarmos o mundo, ou as pessoas que o habitam. Isso é assunto para outro comentário.
    Confesso que, às vezes, não raramente, me esqueço entre uma semana e outra, e quando encaro o reflexo tomo um susto: é como ter outra na minha frente vivendo uma vida que me dispensou. Talvez tudo isso faça parte do ritual de envelhecer.

    Abraços, querida.
    www.difranmelo.com

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