a madame com um cachorro na bolsa

essa não é a Madame

A madame com um cachorro na bolsa. Não um vira-latinha amorzinho, mas um Lulu da Pomerânia amorzinho. Não prestei atenção na bolsa, pois geralmente não foco nesse tipo de coisa, mas pelo contexto posso especular que não era uma bolsa qualquer. Enquanto eu e Madame cruzávamos nosso caminho em alguma rua do rico subúrbio parisiense, Neuilly-sur-Seine, o luluzinho apreciava o passeio passivo com sua cabecinha minúscula para fora daquela bolsa não-qualquer. Nesse dia eu decidi que adotaria um cachorro.

Ainda não o adotei, pois foi uma decisão bem recente, e preciso estabelecer algumas coisas antes de sair por aí em busca de um doguinho amor. Preciso (1) definir se continuarei morando em Paris ano que vem; (2) conhecer o custo financeiro para se criar um dog feliz e saudável; (3) mudar de emprego logo, pois já não estou contente com meu job atual. Estou levando vários fatores em consideração antes de adotar um cachorro, pois é uma decisão que envolve muita responsabilidade. Ainda estou hesitando em ter um cachorro. Um cachorro. O que dizer sobre ter filhos?

No post passado, prioridades, maternidade e o armário de Nárnia, comecei a desenrolar um conflito pelo qual estou passando: ser mãe ou ser não-mãe (de humanos). Em contrapartida, eu estou louca para ser mãe de um cachorrinho, porque acho que ele seria uma ótima companhia e ocuparia parte do meu vazio como ser humano. Dois são os requisitos que o dog em questão deve preencher: (1) ser adotado e (2) ser pequenino ao ponto de caber confortavelmente dentro da minha bolsa, porque eu sei que eventualmente terei que pegar o metrô com ele.

Eu também quero ser a Madame, sabe? Ela me passou uma primeira impressão muito glamourosa de sua vida, por mais que tudo o que eu tenha imaginado seja falso. Talvez, enquanto se aproximava de mim, ela estivesse pensando nossa, essa guria parece tão livre e solta... queria ser ela. Ou não! Talvez ela esteja bem contente com sua vida e seu lulu sorridente.

Será que ela tem filhos humanos? Ou será que ela optou por não ter, e portanto tem condições financeiras e mentais para viver sua vida de madame? Poucas são as mães que eu conheço que conseguem manter a vaidade em dia, e não estou apenas falando de cuidados básicos de higiene, mas de ter um momento para si e dele desfrutar; comprar coisas para si sem o peso da culpa por não estar comprando primeiramente algo para seu filho; aceitar que seus desejos são tão reais quanto os de seu filho; cuidar de sua aparência. Sou o tipo de pessoa que se preocupa com a aparência, e não me sinto fútil por causa disso. Vale lembrar que na Grécia Antiga o corpo humano era cultivado, trabalhado e visto como o invólucro da alma - mesmo que idealizado por uma perspectiva grega que permanece, em parte, até os dias de hoje, e que nos persegue.

Que tipo de mãe eu seria aos olhos dos outros - portanto aos olhos do meu ego? Mãe com um cachorrinho na bolsa? Mãe com olheiras e pasta de dente no casaco moletom? Mãe cool/brega que usa a mesma cor de All Star que seu bebê? Mãe blogueira? Mãe arrependida de ser mãe, mas tentando achar a faísca da sua vida? Pourquoi pas?

Tenho 27 anos. Em Janeiro estarei completando 28. Em menos de dois anos, realizei uma enorme lista de sonhos. Comprei uma passagem só de ida para a França, fui au pair, aprendi Francês, tirei meu certificado TEFL (Teaching English as a Foreign Language), trabalho como teacher e alugo um studio em Paris, fiz voluntariado pela WorldPackers na Inglaterra, entrei na Université de Lille e estudo História da Arte... Estaria eu dando aquele check em vários itens da minha lista de desejos? Sim, mas saiba que estou longe, beeeem longe de ter uma vida financeiramente estável - ter uma vida financeira estável faz parte da lista de desejos. Ainda vai demorar um pouquinho, mas no dia que isso acontecer (sou otimista) eu vou querer gastar meu dinheiro com café da manhã de hotel, exposições de arte, vinho, chocolate e mini-saia, em vez de creche, fraldas e roupas que logo não servirão mais.

Quando estou em busca de respostas através de outra perspectiva eu normalmente tenho um tarot talk com meu Universal Waite. Deixa eu ver:

Que tipo de mãe eu seria?


Tarot: Você seria uma mãe individualista. Você tentaria escapar dessa situação, buscando uma saída que não causasse tanto sofrimento para sua família.

Ai, essa doeu... Teria eu capacidade de ser uma mãe voltada para meu mundo não-mãe enquanto crio um filho humano saudável e feliz?


Tarot: Shh! Nem começa! Você veio para seguir um caminho solitário de conhecimento e esclarecimento através da autoreflexão.

Solitária? Mas eu quero tanto viver um romance! Eu sinto amor! Eu sinto muito amor! Existe uma vertente de carinho abundante dentro do meu peito e no calor das palmas das minhas mãos.


Tarot: Então pega esse carinho e esse calor das suas palmas e investe no que você mais ama: escrever. Sua mente está fértil, sua criatividade está fluindo. Você sabe que esse é seu caminho, e seu blog te trará um desfecho favorável - para de criar desculpas.

Sabe aquele desejo do ser humano de se enxergar naquilo que está elaborando? Nós queremos deixar nossa marca para poder validar esse tempo finito que passamos aqui na Terra. Algumas pessoas decolam em uma carreira brilhante; outras abrem seu próprio negócio; outras vivem para a comunidade; algumas mergulham em sua arte; outras fazem filhos. O que eu faço? Eu escrevo um blog, e estou bem contente com isso, pois me vejo em cada vírgula - especialmente quando a vírgula está mal posicionada, pois minha pontuação dá uma bugada de vez em quando.

Quero um cachorrinho para me fazer companhia e carregá-lo na minha bolsa - não um filho. Quero escrever meu blog para me reconhecer em algo e validar minha existência na Terra - não um filho. Se o que procuro é uma forma de reconhecimento e validação, qual a diferença entre um filho e esse blog? Cheguei a conclusão de que esse blog é meu filho. Minha mente explodiu.

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