Você não quer ter filhos? Mas você ainda vai mudar de ideia...


Prepare um chazinho e vem cá, pois tá na hora de termos aquela conversa. Uma conversa que está presa aqui na minha garganta e que está avacalhando meu chakra laríngeo; um assunto que precisa ser pensado, analisado com carinho e segurança: a decisão de querer ou não ser mãe. Essa conversa sobre maternidade é "complicada", e sabe porque estou usando aspas? Bem, porque essa conversa é complicada dependendo da resposta que se dá quando alguém te pergunta você quer ter filhos? Se a resposta for sim, zero complicação, mas caso sua resposta seja não, prepare-se para um monte de opiniões que você não pediu + a possibilidade de você se autoduvidar, afinal... que mulher saudável não amaria gerar e criar uma criança? *sarcasmo*

Tenho 27 anos, trabalho e estudo na França, tenho minha vida de adulta e minhas contas para pagar, tenho que tomar várias decisões quanto ao meu futuro e aos caminhos que quero traçar, resumindo, tenho autonomia sobre minha vida e estou batalhando pelas coisas que quero conquistar. Sou adulta. Eu cuido de mim mesma. Eu sou tão adulta e cuido tanto de mim mesma, que às vezes eu só queria alguém cuidando de mim só um pouquinho. De vez em quandinho, sabe? E mesmo sendo adulta, eu ainda me sinto extremamente infantilizada quando digo que não quero ser mãe, recebendo a resposta mas você ainda é muito jovem...

É sério... Eu tenho que respirar fundo quando recebo uma resposta dessas, ainda mais quando ela vem seguida de um você ainda vai mudar de ideia. Eu respiro fundo e conto até três para não perder o respeito. Esse mesmo respeito que perderam por mim, minhas opiniões e minhas vontades, invalidando-as. É assim que me sinto. Desrespeitada. Invalidada. Anulada. Infantilizada. Sinto o status quo calando minha boca e minha voz com uma fita adesiva bem grossa e deixando claro que o movimento meu corpo, minhas regras é ainda uma mera ilusão, e continuará sendo enquanto não apenas homens, mas também outras mulheres subestimarem esse meu direito de escolha.

Quando começam a falar sobre maternidade a minha volta, eu já começo a sentir uma coceira e um desconforto pelo corpo. Eu evito ter essa conversa com pessoas aleatórias, mas quando não consigo fugir do você quer ter filhos? eu respondo com outra pergunta: você quer minha opinião ou uma resposta que te agrade? É até engraçado ver o como-assim? na cara das pessoas, que não querem saber de fato minha opinião (por mais que a pergunta seja diretamente para mim). Pelo contrário, elas querem uma resposta única e incontestável: sim, eu quero ter filhos.

Eu nunca fui o tipo de criança/adolescente/mulher que brilhou os olhos para vestidos de casamento e alianças, crianças correndo pela casa, fraldas e noites mal-dormidas. Nunca romantizei esse tal amor ímpar e incondicional de colocar uma criança no mundo e, consequentemente, tornar dela o meu mundo. E esse é um dos principais motivos pelos quais eu não quero ser mãe. Puramente não quero que outra vida seja a razão da minha própria. Não quero que outra vida seja a minha prioridade. Eu sei, genuinamente, que não vim para esse mundo para deixar meus sonhos e planos de lado para atender aos sonhos e planos de outra vidinha. E se você está me achando egoísta, seja livre, porque eu também não vim aqui para passar de boazinha pelos olhos alheios.

Quer saber os porquês de eu não querer ser mãe atualmente? Aí vai uma listinha com os principais:
1. Não tenho a mínima vontade. Ponto. Sabe esse chamado que muitas mulheres sentem para a maternidade? Então... Eu não sei. Não tenho noção de como é esse sentimento, pois eu não vejo o sentido e a necessidade de colocar uma criança no mundo - para então conhecer amor e me sentir completa.
2. Não sou egoísta, eu apenas sei o que quero: minha vida em primeiro plano. Egoísmo (e insensatez) seria colocar uma criança no mundo, sabendo que talvez essa não seja a melhor escolha, e deixar a criança de lado.
3. O gasto que é ter uma criança. Não preciso nem continuar...

Quando uma mulher diz que não quer ser mãe, pessoas a sua volta têm um reflexo imediato de vomitar as palavras mas você ainda pode mudar de ideia, mas porque esse vômito não acontece quando mulheres dizem que querem de fato ser mães? Por que somente o não pode virar sim? Por que eu vou mudar de ideia assim que eu encontrar o homem da minha vida? Esse tal homem que vai fazer aflorar dentro de mim a vontade de constituir uma família. Verdade seja dita, esse é claramente mais um daqueles fardos que o patriarcado depositou sobre nossos ombros.

Veja bem, talvez eu venha a mudar de ideia no futuro, e estou aberta a essa mudança desde que ela se desenrole de forma natural, uma vontade genuína. Eu já fui tantas Amandas no decorrer desses 27 anos. Minhas vontades e minha visão de mundo se transformaram muitos no último ano, e continuam nesse processo. Isso quer dizer que minha ideia quanto a maternidade pode mudar daqui alguns anos, mas, entenda, que se isso acontecer é porque essa vontade veio daqui de dentro, uma vontade pensada e analisada com carinho. Então pare de dizer que eu vou de fato mudar de ideia, que eu ainda sou muito jovem, que eu ainda não encontrei o homem da minha vida, que sem filhos eu serei triste e solitária. Pare de me fazer acreditar que não posso ser feliz sozinha. Em suma, se você está me perguntando minha opinião, aceite-a. Não conteste. É minha opinião. E se ela te incomoda, não pergunte.

Às vezes eu ainda duvido de mim mesma, mas essa fonte de dúvida não vem daqui de dentro, e sim de fora; de parentes que seguem um protocolo; de desconhecidos que supostamente "querem ajudar"; de parceiros que almejam ser pais; de uma sociedade patriarcal que ainda não compreende a felicidade e a liberdade de uma mulher que não quer ser mãe, mas apenas mulher.

Comentários

  1. é aquele feeling de tirar a escolha da mulher né? como se devesse seguir um protocolo. da mesma forma que pra quem escolhe ser mãe, não pode reclamar sobre cansaço que logo vem alguém falar sobre o milagre que é ter um bebê e que devemos ser eternamente gratos, caso contrário vai parecer que você não ama o seu filho. MEUDEUS sabe? a coisa mais fácil das pessoas esquecerem parece de fato ser o respeito pelas escolhas alheias. todo mundo dando pitaco não solicitado como se o seu universo devesse fazer sentido para o outro também.

    aqui não teve "chamado" materno nem nada, não sai amando a maternidade assim que pari. pra ser sincera eu até pensava em ser mãe em algum momento da minha vida mas nem pensava muito sobre isso porque me dava preguiça pensar em todo o contexto de achar um parceiro, ser um relação boa, dar match etc kkkcrying.

    enfim, me empolgando nas reflexões aqui como alguém que escolheu ser mãe e só chegando a conclusão de que na verdade a gente sempre vai ser julgada né? por não querer ser mãe e por querer e não atingir as expectativas alheias. sendo que né, mal atingimos as nossas quem dirá as dos outros. deus me free.

    aliás, desculpa por estar cometendo esse textão na caixa de comentários HAHAHA queria dizer que acho importante esse tema que trouxesses pra cá. reforçando o simples fato de uma mulher poder ter suas próprias escolhas sobre como vai conduzir sua vida, sobre seus propósitos e ponto. não precisava nem se justificar né? são pouquíssimas as pessoas que vi se sentirem ok em compartilhar esse tipo de escolha justamente por conta da reação dos outros. na hora de trocar mil fraldas e aguentar o caos materno ninguém tá ali pra falar de milagre.

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