meu primeiro beijo, um trauma adolescente

 
Você deve estar pensando que esse post é sobre o guri que me beijou pela primeira vez, mas já vou avisando que essas palavras não têm nada a ver com ele, nem com o momento do beijo. Vim contar para vocês o que aconteceu algumas horas após, sob o teto da minha casa, e é aí que se encontra o trauma

O guri que colou lábios e lígua comigo pela primeira vez se chama Wagner. Ele era uma ano mais novo que eu, e estudávamos na mesma escola. Ele era um guri muito doce, diga-se de passagem. Meu primeiro beijo foi aos 13 anos (se não me engano), e eu lembro como se fosse ontem, carregando essa memória com muito carinho.

Durante muitos anos, fiz parte do time de handebol do meu colégio (Marista Graças, Viamão) e todos os anos participávamos de torneios, os quais levávamos muito a sério e que traziam uma enxurrada de adrenalina, conexão entre colegas do time e aprendizados. Um desses vários torneios aconteceu em Erechim-RS, então metemos o pé na estrada em um ônibus de viagem - nossa como amávamos aquela fulia.

Chegando em Erechim, antes de descermos do ônibus, eu dei meu primeiro beijo nos bancos do fundo enquanto minhas colegas ficavam de olho caso algum professor aparecesse por perto - vê se eu posso com isso kk. Foi um beijo normal, um beijo meio nada a ver que qualquer pré-adolescente que não sabe beijar deveria dar. Ele foi um amor, e penso nele com muito carinho. Zero problemas quanto ao Wagner.

Naquela época eu tinha um celular Siemens A50 com a telinha laranja (vocês se lembram desse celular?), e eu e minhas amigas nos comunicávamos por SMS - e não existia essa de colocar senha para desbloquear. À noite, enquanto tomava banho, minha amiga Anna Paula me envia um SMS perguntando sobre meu primeiro beijo. Meu celular estava no canto da longa mesa da cozinha, e minha mãe, que estava cozinhando, ouve o toque monofônico vindo do meu celular e resolve verificar aquela mensagem.

Meus pais nunca foram de "xeretar" nas minhas coisas, e eu tenho certeza absoluta que minha mãe abriu aquela mensagem na maior inocência, esquecendo que eu já era pré-adolescente e que gostaria de ter um pouco de privacidade. Por mais que a intenção dela ao ler meu segredinho fosse sem malícia, ela não gostou nem um pouquinho de saber que eu tinha dado meu primeiro beijo, e eis que o trauma se desenrola.

Depois que saí do banho, minha mãe vem até meu quarto e me pergunta que história é essa que tu beijou alguém? Eu, até então, não sabia que havia algum problema, e respondi sim... eu dei meu primeiro beijo. A reação da minha mãe foi a pior que ela poderia ter tido. Ela literalmentre gritava e dizia que eu não podia fazer isso, que eu não tinha idade para isso, e que ela não queria saber de mim beijando novamente. Como se isso não bastasse, ela ainda chamou meu pai para a conversa, que basicamente fez o mesmo, com uma raiva pela qual eu não estava esperando. E a cereja do bolo foi que isso tudo acontenceu na sala de estar, enquanto meus irmãos mais velhos estávam no sofá. Foi uma humilhação sem tamanho...

Meus pais são pessoas do bem, e eu tenho certeza de que se eles pudessem ter sido melhores em todo e qualquer aspecto, eles teriam sido. Eu entendo que essa foi a forma que eles souberam reagir, e que não fizeram com a intenção de me traumatizar, mas foi isso o que aconteceu. Não estou aqui para culpá-los, tampouco para justificar seus atos, mas fatos são fatos, e eles erraram feio nessa.

Dias, semanas, meses e anos se passaram desde esse incidente traumatizante, e eu ainda tinha medo de beijar na boca, e as poucas vezes que beijei aconteceram com muita culpa, ansiedade e receio de ser descoberta pelos meus pais. Eu tinha na minha cabeça que eles descobririam todo e qualquer beijo que eu desse, especialmentre porque morávamos na frentre da minha escola, e eles tinham uma boa relação com meus colegas.

Enquanto eu me aproximava dos 18 anos, essa culpa foi gradualmente se apagando, e fui me permitindo beijar outras bocas sem sentir tanto remorso, mas ainda há muitos resquícios desse evento desgostoso que me perseguem, e o maior deles é o fato de eu achar que não posso ser um ser sexual perto da minha família. Eu achava que não tinha direito a sexualidade, já que um simples beijo me foi proibído aos 13 anos de idade.

Sexualidade e sensualidade são um poder, e como achava que eu não tinha direito a esse poder, demorei muito tempo para encontrar a mulher de dentro de mim. Eu sabia ser menina, sabia ser adolescente, mas demorei muito tempo para me encontrar mulher.

Jamais conversei sobre paixões com minha mãe, muito menos sobre sexo. Nunca tive "aquela conversa" com meus pais, que inclusive se negaram a conversar comigo sobre aos meus 15 anos de idade. Minha mãe conversava sobre sexo com minhas primas, inclusive dava uma de cupido, e isso só reforçava o fato de que qualquer pessoa poderia ser sexual, menos eu. E isso explica porque eu tive um ataque de ansiedade feroz antes de ir a um motel pela primeira vez. Eu sentia que aquilo era algo errado, sujo e que alguém me descobriria (meus pais).

Hoje, com 27 anos, finalmente me dou conta dos porquês de muitos problemas que tenho com relação a minha sexualidade e quanto à mulher que se encontra adormecida dentro de mim. Estou contente por ter finalmente descoberto essa raiz, e agora se inicia o processo de removê-la.

Comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Nossa que situação, eu me identifiquei totalmente com essa postagem, tenho 21 anos, e tenho alguns traumas não superados, e que na hora de transar eu simplesmente não consigo pq eles todos vem a tona. sua postagem foi muito importante para reforçar a importância do autoconhecimento, obrigada, realmente amei essa postagem, caiu do céu pra mim

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