não deixe um pênis decidir se você transou ou não

Passei o auge do florescimento da minha puberdade cercada por adolescentes muito sexuais ou muito interessadas em abrir suas portas para uma vida sexual ativa. E enquanto isso, eu, mais preocupada em tocar violão, cantar, desenhar, experimentar, aprender e criar algum tipo de arte com o qual eu me identificasse, não tinha muito espaço de sobra para pensar em sexo, até porque eu tenho Vênus em Peixes, então sexo por sexo não era algo que eu cogitava na época. Isso fez com que eu me tornasse A Virgem do rolê, e esse rótulo havia virado uma referência do tipo:

- Sabe a Amanda?
- Qual?
- A Moresco.
- Moresco?
- A virgem!
- Ahhhh, sim! A Moresco!

Eu amaria ter vivido minha adolescência com a maturidade e visão que tenho hoje, isso teria tornado minha adolescência um pouco menos insuportável, pois esse rótulo me trazia incômodo, dor e vergonha. E veja bem, eu não queria ter sido exposta dessa forma, mas bastou eu contar 01 vez para 01 pessoa, e pronto... Ninguém me perguntava se eu queria espalhar essa informação, pelo contrário, as pessoas sentiam a necessidade e o direito de quase pegar um megafone e sair gritando pela rua A MORESCO É VIRGEEEEM! Isso me atormentava ao ponto de eu querer finalmente "perder a virgindade" (detesto essa expressão) as soon as possible, não importasse com quem, tampouco a circunstância.

Até pouco tempo atrás eu diria que "perdi minha virgindade" com 21 anos. Com quem? Com um cara bem bosta que me tratou de forma muito indiferente no sofá da casa de um amigo - amigo dele. Foi uma noite ridiculamente desprezível, sem carinho, sem tesão, nem atração, sem orgasmo... Quer dizer... Sem meu orgasmo, pois ele fez questão de gozar e dormir. Porém, olhe que bacana! Eu já não era mais virgem! Eu já não era mais A Virgem, e passei a me sentir livre, sem culpa, longe dos holofotes da pureza; agora eu poderia conversar sobre sexo - sobre o que eu ilusoriamente achava que era sexo.

Graças à Deusa, esse tempo passou, e adentrei uma atmosfera de autoconhecimento, carinho e respeito por mim mesma; de estudo sobre o Sagrado Feminino e desenvolvimento da minha espiritualidade; de desconstrução de um veneno mortal chamado "patriarcado". Hoje em dia, se você me perguntar quando "perdi minha virgindade", quando transei pela primeira vez, eu te responderei outra coisa.

A resposta será 19 anos. E por quê? Bem, porque aos 19 anos eu tive uma experiência fantástica na Guarda do Embaú, uma praia em Santa Catarina. Era Carnaval, e eu e minha amigas havíamos alugado uma casa na praia e metemos o pé na estrada! Em um dos luaus que fizemos, conheci um cara que guardo com muito carinho na minha memória e no meu coração. Conheci ele em uma noite, e resolvemos nos encontrar novamente na noite seguinte, a noite que passamos juntos. Foi uma noite linda! Conversamos muito e tivemos muita troca, carinho e consideração, e eu jamais imaginara ser possível tal troca com alguém que eu havia conhecido há menos de 48 horas.

Quando voltei para casa no dia seguinte, minhas amigas me perguntaram com extrema excitação e curiosidade "E aí? E aí? Rolou? Contaaaaa!", e sabe qual foi minha resposta? Eu disse "Não... Não rolou nada... Fizemos algumas coisas, mas ainda sou virgem". E em vez de me sentir contente por ter tido uma experiência linda como foi, eu me senti decepcionada.

Decepcionada por quê? Pois eu estava deixando um pênis decidir se eu havia transado ou não, e na minha cabeça imatura e pratriarcal, uma noite de sexo somente seria oficializada no momento em que um pênis tocasse as paredes de uma vagina. Dedos não bastariam, tampouco um vibrador gigantesco. A única coisa que bastaria seria um pênis qualquer aproveitando o calor da minha vagina por miseráveis segundos, por mais que minha vagina não estivesse aproveitando nem um pouco aquele pênis, aquele homem, aquele sofá, aquela indiferença e frieza, aquela falta de amor - de amor por mim mesma.

O zelo e preocupação que o Cara Da Praia teve por mim não havia sido um marco relevante na minha timeline, mas o pênis esfomeado do Cara Do Sofá sim. Porém, como disse anteriormente, essa visão patriarcal que eu antes carregava se transformou, bem como minha visão sobre o que sexo significa. Então deixo a seguinte pergunta: O que é sexo para você?

Hoje compreendo que sexo não é o mesmo que penetração-vinda-unicamente-de-um-pênis. O que você diria sobre mulheres lésbicas que jamais transaram com homens? Seriam elas virgens somente porque suas vaginas nunca acolheram um pênis? Se você fez coisas maravilhosas na cama com seu parceiro e teve, inclusive, uma conexão sexual e energética gostosa, mesmo na ausência de penetração-vinda-unicamente-de-um-pênis, você pode apostar que você transou. E quando sua amiga te perguntar "E aí, rolou?", não responda "Hmmm, nada demais, fizemos algumas coisas, mas não transamos", porque tá mais do que na hora de compreendermos que um pênis não decidirá se transamos ou não.

Comentários

  1. A pergunta que fica é...
    Tu falou que não gostava na época e mesmo assim essas pessoas continuaram? Porque realmente, se tu colocou a tua dor e não foi respeitada, eu entendo o teu posicionamento, mas se tu continuou a andar com essas pessoas e nunca falou nada, tu mesma te colocou nessa situação.

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    Respostas
    1. Eu não me coloquei em situação alguma. Se eu tivesse tido discernimento suficiente para ver que esse comportamento era abusivo eu teria conversado com eles sobre isso, ou mesmo cortado a relação com essas pessoas.
      Não sei seu nome, pois você não mencionou aqui, mas saiba que não é certo julgar uma pessoa que não sabe que está vivendo um relacionamento abusivo.
      E saiba que deixar comentário em anônimo e vazar é muita falta de coragem :)

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  2. AMANDA VOCÊ É PERFEITA, ENTENDA!
    Eu concordo muito que transar vai além de penetreção, seja ela de pênis ou qualquer outra coisa. Acho que pode envolvar tantas (ou poucas) coisas, que eu não sei nem como explicar, hahaha!

    Como sempre, amei passar por aqui! Suas postagens são incríveis

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