Diário Nômade: um hotel em Roma no Inverno de 2016

Bom dia, diário :)

Sou feliz acordando cedo, mas cedinho mesmo, sabe? Algumas pessoas insistem em dizer que não preciso acordar cedo assim, mas continuo dizendo que é, de fato, uma necessidade. Felizmente, meu trabalho não começa tão cedo, e tenho a ventura de poder trabalhar 03 vezes por semana por conta própria no conforto do meu sofá, vestindo apenas um blusão quentinho, uma calcinha enorme e meias 7/8. Contudo, querido diário, você compreende (você sempre me compreende) quando digo que necessito acordar cedo, pois é imersa no silêncio e no enfraquecido brilho crescente da manhã que dou a devida atenção às faíscas que pulsam aqui dentro de mim.

Como toda e qualquer manhã preparei um café para começar as primeiras horas quentinha e acolhida, e enquanto seu vapor subia em perfeitas curvas macias, fui pega de surpresa por uma fragrância que eu já sentira há algum tempo atrás. Diário querido, não consigo contabilizar todas as canecas de café que já nutriram minha alma, então por que esse café me transportou para aquele hotel em Roma no Inverno de 2016? Por que esse café que estou agora segurando carrega esse aroma específico? Uma mistura do expresso curto que se termina em dois goles ligeiros; do leve e fresco eucalipto que se alastra pelos corredores, que é facilmente sugado por narinas e que limpa pulmões; da educação e simpatia que somente se encontra nas férias; de largas camas que me abraçam como areia movediça em lençóis brancos e pesados; de uma nova cidade a ser explorada, de uma cidade inteiramente minha por um tempo finito e que me deixa com aquele gostinho de quero mais; de um vazio que se preenche e que logo volta a ser vazio. É o aroma desse café que seguro agora; daquele hotel em Roma no Inverno de 2016.

Por mais que eu seja fascinada por hotéis, o carinho dessa memória não se encontra no hotel em si, mas na experiência da qual ele faz parte, experiência essa que está fazendo falta nesse meu coraçãozinho: viajar e se entregar. Ok, diário, eu sei que sou expatriada, e é como se eu viajasse todos os dias que vou trabalhar, mas já faz mais de 01 ano que moro aqui, e essa cidade inteira já se tornou mais um local corriqueiro. Admito que me dói o peito e a consciência quando digo que Paris tenha se tornado corriqueira para mim, afinal de contas, é Paris! Como poderia tal cidade se tornar comum? Será que todo e qualquer lugar pode se tornar ordinário?

Quando ainda morava no Brasil, eu tinha em mente passar um tempo em cada cidade que eu desejasse - aquilo que dizem sobre uma vida nômade e desapegada. Porém, eu vejo pessoas à minha volta se estabelecendo, soltando a âncora na beira do mar, construindo uma vida a qual eu sempre evitei, e toda essa referência me leva a questionar certezas que agora já não parecem mais tão certas, e que brincam nesse looping de certo-incerto ao ponto de eu já não reconhecer quem sou. É tanta influência que vem de fora que às vezes esqueço de cultivar o que quer florescer daqui de dentro.

E enquanto danço essa dança da dicotomia sou pega de surpresa pelo aroma de um hotel de Roma no Inverno de 2016, e eis que volto a ter consciência da minha realidade, de quem sou e do motivo pelo qual faço tudo o que venho fazendo. Sim, sou cidadã do mundo, mas isso não significa que eu jamais venha a desenvolver raízes, mas algo dentro de mim insiste em me dizer que essa ainda não é a hora. E quando será a hora? Não sei, querido diário. Apenas sei que ainda não é a hora.

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