pare de se categorizar como um produto de supermercado

Prometo tentar ser o menos clichê possível com essa história de autoconhecimento, ok? Eu prometo não fixar no velho discurso do "ouça sua voz interior" e "dê asas a quem você realmente é" porque, convenhamos, não temos a mínima noção de quem somos. E é justamente isto o que mais me chama atenção: essa incessável e insana busca por certeza.

Não estou dizendo que devemos jogar tudo para os ares e amar o imprevisível, mesmo que isso dê aquele rush de adrenalina que particularmente adoro. Contudo, eu me questiono quanto a esse desejo de rotular quem somos, como funcionamos, aquilo que não gostamos, aquilo que jamais aceitaríamos, facilidades e limitações. Sinceramente, tenho a impressão de que estamos nos rotulando como se estivéssemos categorizando produtos em corredores de supermercado. Hmmm, veganos nesse corredor. Amantes de doces naquele. A sessão fitness fica no corredor 08. Matutinos. Consistentes. Pavio-curto. Pois é... eu não sou boa em Artes, então me colocaram no corredor das exatas. Você realmente quer se enxergar como um produto à espera de um lugar confortável em alguma prateleira? Será que você realmente precisa desse conforto?

Um conforto que traz desconforto, não é? Toda vez que eu (ou as pessoas ao meu redor) defino a qual corredor eu pertenço, sinto como se esse fosse o ponto final. Eu sou isso. Sempre fui. Sempre serei. Ponto final. Ah, mas eu gostaria de experimentar a sessão de limpeza e organização. Hmmm, muito tarde, querida, você já foi registrada como bagunceira... já foi registrado no sistema...

Durante muito tempo eu achei que precisasse me encaixar em alguma definição, senão o que seria da minha bio do Instagram? Sarcasmo. Se esse universo está em constante mudança e ampliação, por que nós não seríamos dignos de tal condição? Por que devo ser imutável? Com o passar dos anos, compreendi que é ok (e maravilhoso) não se rotular; não sinto mais uma louca vontade de possuir um local no corredor do supermercado, mas de colocar todas aquelas prateleiras abaixo, misturar tudo, fazer uma bagunça louca, inventar umas receitas novas e experimentar vários sabores, texturas e fragrâncias diferentes ao mesmo tempo, e veja o que eu descobri: novos hobbies, gostos e habilidades. Eu não preciso de um rótulo. Eu não quero um rótulo. E eu duvido que você também o queira, pois isso traz muita (muita!) responsabilidade, crítica, além de umas crenças limitantes que nos impedem de explorar.

O que me ajudou a analisar essas crenças que me limitam foi parar de dizer (e isso é bem pessoal): sou impulsiva; sou distraída; não sou boa em gravar datas e nomes; não gosto de malhar; não nasci para ter uma rotina; eu produzo melhor à noite; não gosto de tomate. E sabe por que eu parei de dizer isso? Porque eu resolvi dar uma segunda chance aos tomates, e você pode apostar que às vezes tudo o que eu quero comer é um tomate com uns pedaços de queijo. Eu amo! tomate.

Quer uma dica de ouro? Não deixe que outros te categorizem também. Já aconteceu várias vezes de pessoas olharem para mim e dizer com toda a certeza do mundo: querida, você é muito avoada. A Amanda do passado daria uma risadinha leve e meiga e compraria esse rótulo para si. A Amanda do presente ainda daria uma risadinha leve e meiga, mas responderia: querido, eu não sou não.

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