entre os quatro cantos

entre os quatro cantos dessa cama
entre os nós das nossas pernas
desenrolo alguma história que já não lembro mais e me esforço
me esforço para manter a linha dessa conversa
enquanto você
escorado na parede adjacente à essa cama
você traga o que sobra do cigarro entre manso suspirar
aqui nesse colchão sou sugada pelo mármore em tons de verde marrom laranja ah seus olhos
seus olhos quase se fecham mas suas mãos
suas mãos se abrem e invadem o calor entre minhas coxas e fica cada vez mais difícil de me concentrar

nosso sexo começou muito antes da sua língua na minha
antes do seu suor na minha
do seu hálito quente na minha
nosso sexo começou no seu mosaico outonal
no modo como você me olha porque eu sei
eu sei que você também não quer saber dessa história que já não lembro mais eu sei
eu sei que por trás desses projetores o filme que passa é o que está prestes a acontecer
te quero tanto aqui agora
você já tirou minha blusa e a jogou em algum lugar que amanhã vou demorar para encontrar
estou costurando minha pele do avesso na esperança de um disfarce
mas com você
sou fonte do desejo
epítome da vulnerabilidade

a blusa que amanhã vou demorar para encontrar

encontrei
ela está do avesso
eu desviro
ela está do avesso de novo
desviro
ela ainda está do avesso
visto ela assim mesmo
sou essa blusa que já não consegue esconder o lado de dentro

Comentários

  1. Gostei deste texto poético. O teor despojado, erótico e levemente confuso dele são misturados de forma muito agradável e cativante.

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  2. Muito obrigada, Marcondes! Eu realmente tentei dar um ar confuso e esbaforido :)

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