wicca, witchcraft, art magick e um altar

Como mencionei no post Happy Frenchversary, ter me mudado para a França resultou em um mergulho para dentro do meu próprio oceano, explorando quem realmente sou e reciclando tudo o que ilusoriamente achei que fizesse parte de mim. Em um desses mergulhos descobri uma fonte de espiritualidade que eu desconhecia, já que passei boa parte da minha vida refugando qualquer forma de religião por conta de ter crescido em uma família fervorosamente católica - e levemente cega por conta da religião. Note: Minha família é composta de pessoas maravilhosas, mas sabemos como a religião é capaz de moldar um indivíduo.

Logo que cheguei na França senti maior liberdade para compreender distintos caminhos espirituais e vivenciar aquele que fizesse sentido para mim, e foi assim que voltei a me conectar com Wicca e fazer uso de witchcraft. Wicca é uma religião que envolve estudo e prática, ou seja, juntar as palavras wiccan e não-praticante não faz muito sentido. Criei uma sede insaciável de obter conhecimento sobre as diversas ramificações que constituem essa árvore pagã, e desmistifiquei muitos conceitos equivocados que havia engolido goela abaixo por conta da indústria cinematográfica.

Eu tinha a ideia de que praticar witchcraft envolvia a realização de feitiços, enclausurada em um quarto escuro, rodeada de velas, incensos, ervas, caldeirões, cálices, pentagramas e qualquer outro item que eu tivesse visto no filme Hocus Pocus quando ainda era apenas uma criança. É claro que witchcraft pode (e merece!) ser conduzida com o auxílio de tais elementos, mas não quer dizer que sem eles a mágica não aconteça. Gosto de vê-los como impulsionadores da intenção que se encontra dentro de nós mesmos, logo a mágica não depende do material, mas do próprio indivíduo.

Witchcraft é um aspecto muito relevante dentro da religião Wicca (mas não obrigatório), e várias são as formas de desenvolver magia: feitiços, poções, meditação, kitchen witchery, divinações e por aí vai. São tantos os métodos que podem nos auxiliar a construir essa ponte de conexão com nós mesmos (e consequentemente com o divino) que no meio do caminho fiquei um pouco perdida e confusa, além de ter tido uma leve crise de identidade por não saber se estava traçando o correto caminho dentro dos vários caminhos que existem na religião Wicca. Meu erro (e é ok errar) foi achar que eu deveria fazer uso de um específico método de witchcraft, e isso estava me sufocando ao ponto de eu ter que deixar meus estudos de lado por quase 01 mês, respirar um ar que vem de fora e refletir sobre essa pressão que depositei em mim mesma.

Nesses quase 30 dias sem estudar sobre Wicca e sem praticar witchcraft (da forma fixa que achei que deveria) me dei conta de que nem Wicca e nem a magia haviam se desprendido de mim. Eu tentei dar um tempo, mas elas sempre estiveram ali, pois carrego a magia dentro de mim. Então comecei a repensar meu próprio conceito de magia, bem como os métodos que eu vinha utilizando, e me dei conta de que desde minha adolescência eu sempre fiz uso de magia de forma muito sutil e nem ao menos sabia, e estou falando sobre art magick.

Recentemente compreendi onde e como minha magia sempre aconteceu de forma espontânea, e só consegui enxergar isso por conta das constantes mudanças que tive ao longo do ano de 2019. Desde que cheguei na França me mudei 05 vezes. 05 casas diferentes. 05 quartos diferentes. Contudo, uma coisa sempre se manteve inalterável: meu altar.

É muito estranho pensar que tenho um altar, pois eu realmente não sabia que tinha um, e é isso o que o torna tão especial para mim, pois meu altar sempre foi espontaneamente um lugar de paz e reconexão. Você deve estar pensando em um altar com velas, estátuas da Triple Goddess, pentagramas, uma varinha e um caldeirão para fazer uns ponches mágicos, não é? Bem, você acertou em partes, mas deixa eu te explicar como meu altar funciona na prática, e começo dizendo que podemos substituir o termo altar por escrivaninha.

Isso mesmo, meu altar é minha escrivaninha, mas não é tão simples e superficial assim. Talvez você também tenha uma escrivaninha em casa e não a considere seu altar sagrado, e é aí que se encontra a diferença entre sua escrivaninha e meu altar. Minha escrivaninha contém incensos e velas, que acendo toda vez que trabalho com mentalizações ou na celebração de algum Sabbat; minha caneca amarela (caldeirão), onde bebo líquidos que preparo com intenções diversas; canetas coloridas (varinhas), as direcionadoras de energia que deposito nos meus cadernos (Livro das Sombras), que levam o registro de aprendizados sobre o Sagrado Feminino, ginecologia natural, ervas medicinais, encantamentos, sentimentos; livros que me fazem parar o tempo e olhar para dentro; um pentagrama, plantas e cristais.

É no meu altar que escrevo boa parte dos meus poemas e postagens para o blog. É no meu altar que minha mágica acontece. Minha escrita é meu poder, minha voz, minha arte, minha magia. É através da escrita que transformo meus dias e que desenvolvo boa parte do meu caminho wiccan. Eu posso até tentar ficar longe da magia, mas seria esforço em vão, pois ela sempre fez parte de mim.

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