a menina que eu quis matar (I)

   
você já quis matar alguém?

sim
uma vez
uma menina

e você a matou?

não consegui

descreva o ocorrido.

o mais frio dos invernos
desenhado com os mais sombrios tons de escuridão
na máxima distância marcada entre eu e o sol
a noite jamais fora tão longa
a noite que eu quis matar essa menina

eu já não simpatizava com ela
não a queria mais por perto
ela me assombra
é parte da minha sombra
quis apagá-la em silêncio
fazê-la desaparecer
desbotar em dégráde ao ponto de não mais reconhecer sua cor

não deixaria espaço para vestígios
ninguém saberia que ela morreu
ou que ao menos existiu
eu a enterraria em alguma cova qualquer que cavaria em disfarce no auge da espessa e branca neblina
eu a entregaria de volta para a terra sem ao menos agradecer
ali ela apodreceria ali mesmo na festa dos vermes
suas entranhas nutririam qualquer erva-daninha indesejada que não vingaria em parte alguma

eu poderia então esquecer que algum dia ela visitou esse paralelo
que já cantou as mesmas canções que canto agora
que habitou esse corpo que habito
que seus pensamentos viajaram pelas mesmas sinapses do meu cérebro
que suas angústias já rasgaram as paredes do meu peito

e por que você não foi até o fim?

seria em vão
não posso matá-la
para sempre carregarei um álbum de fotos que contam sua história
não há como se livrar desse álbum
queria enterrá-lo junto dela
e também seus julgamentos
e toda sua falta

falta?

de amor por si mesma
de respeito por si mesma

reservaria ao lado de seu rigor mortis um espaço para tudo o que não fora: ela mesma
nunca fora ela
nunca fora dela

ela não sabia do seu potencial
ela não sabia tudo o que poderia se tornar
mas hoje sei quem ela me tornei

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