a culpa de viver leve

Lá estava eu vivendo um momento passageiro de repleta harmonia no conforto do meu quarto após uma jornada de trabalho. Minha cabeça repousava em um dos braços da poltrona e minhas pernas se escoravam no outro; meu corpo retratava o formato de um cálice. Minhas mãos seguravam o livro la mythologie au feminin, meu peito respirava leve e macio e meus olhos perdiam o fluxo da leitura de tanto querer contemplar as florzinhas brancas e os novos brotos de folhas verdes e brilhantes que decoravam a árvore desnuda à beira da minha janela. Ah, que momento gostoso de viver... Tão gostoso que parece não ser verdade, não é? Quer dizer... Não pode ser verdade, pois eu não estava produzindo coisa alguma, tampouco estava angustiada; não estava vivendo sob pressão. Acorda, Amanda! Você tem coisas a fazer! Sempre há algo a ser feito! Não pode parar! Não dá para relaxar! Bora! Hop, hop, hop!

Aquele meu momento glorioso de relaxamento foi cortado por um esse turbilhão de pensamentos e culpa. E prestes a me levantar e começar a fazer algo (qualquer coisa, não importa o quê!), comecei a me questionar: mas por quê? Por que não posso ter um momento de lazer sem estar produzindo? Por que não posso relaxar e aproveitar esse momento? Não teria eu o direito de estar em harmonia? Será que devo estar me estressando com algum prazo, alguma meta? Deveria estar reclamando? Às vezes tenho a impressão de que se estou vivendo leve e feliz é porque estou fazendo alguma coisa errada...

Você já teve essa impressão? É como qualquer filme que já assisti: se tudo está indo bem com aquele soundtrack alegre e estimulante, eu já começo a agonizar, esperando a cena em que alguma tragédia vai chegar entrando com uma voadora e quebrar qualquer traço de satisfação e bem-estar. É como se fossemos criados para viver constantemente sob pressão e para ser multitask a qualquer hora do dia. Tome banho procurando a solução para algum problema, ou mesmo lendo aquele resumo que você plastificou e colou na parede do banheiro. Cozinhe sua janta respondendo emails. Não fique em casa sem fazer nada, pois a vida está passando e você tem que produzir senão "seu dia não contou", ok?

Gosto muito da plataforma Medium, a qual podemos chamar de "Instagram para leitores e escritores", com publicações interessantíssimas em variados estilos de escrita, desenvolvidas por "pessoas normais" como eu, você e qualquer outro ser não famoso nesse planeta. Apesar de amar os artigos que por lá encontro, fiquei chocada ao me deparar com a seguinte chamada: saiba como aproveitar seu lunchtime para ser mais produtivo. Tipo... Quê? Sério? É sério isso? Esse escritor está realmente querendo me convencer de que devo utilizar os poucos minutos que tenho para almoçar, respirar e apenas-existir-sem-me-sentir-culpada para focar em mais produção e gasto de ATP? Eu não me dei nem ao trabalho de ler aquele artigo...

Aqui em Paris dou aulinhas de Inglês para crianças de 1-9 anos de idade e, apesar de gostar do que faço, quando saio das escolas e volto para casa, automaticamente desativo o modo teacher e sintonizo minha mente e minha alma no modo ser-humano-com-próprios-hobbies-e-interesses. Gosto muito de escrever e relatar no blog minhas reflexões e traços do meu dia, desenvolver uns poemas, desenhar, tocar ukulele, meditar, caminhar por aí, comprar velas e incensos, ler sobre temas místicos e de espiritualidade e, ultimamente, ler sobre o que o Diabo representa em diferentes religiões.

Mas, Amanda, aprender sobre isso vai te gerar o quê? Como você vai utilizar isso na sua vida? Gente, será que toda a forma de lazer que consumo deve ser utilizada para futura produção? Tá tudo bem se você quiser praticar atividades e se inteirar de assuntos somente porque eles te soam interessantes. Tudo bem se você estiver utilizando seu tempo livre para alimentar sua alma com conteúdo que ela está pedindo, em vez de apenas otimizar seu tempo com a leitura de algum artigo científico, um curso online de e-marketing e qualquer outro afazer que não seja o que você queira estar realizando no momento. Sua vida é mais do que seus estudos e sua profissão e (pasme!) você não veio ao mundo apenas para adquirir títulos e pagar boletos.

Assim como qualquer outra habilidade que praticamos, a capacidade de relaxar, agradecer e aproveitar verdadeiramente os pequeninos detalhes do dia-a-dia também leva um tempo até ser dominada - até porque estamos remando contra a maré. É difícil desenvolver esses hábito enquanto todo mundo a sua volta está sendo consumido pela ansiedade e te dizendo que você também deveria estar. Dá até uma fisgadinha de culpa ser feliz, não é?

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