apenas uma odisseia parisiense de ano novo

Depois de ter passado o Natal sozinha nessa charmosa e sombria Paris, fiquei contente em saber que poderia passar a virada do ano com alguns amigos estrangeiros que fiz no Brasil, e finalmente sair da minha bolha de introspecção. Hoje é dia primeiro, e ainda estamos imersos nessa caótica greve dos transportes, marcando 28 dias e contando! Ou seja, é evidente a confusão em que nos encontramos para nos locomovermos de um ponto a outro.

Mesmo assim, depois de voltar do trabalho, resolvi arriscar e traçar esse trajeto desafiador, que começava na minha casa (sul de Paris) com destino ao Arco do Triunfo (noroeste de Paris). Como foi essa aventura? Bem, os ônibus estavam lotados em um nível de eu não conseguir neles entrar; o uber chegaria até mim só no ano seguinte, e as pessoas estavam um tanto quanto estressadas e embriagadas ao longo das ruas. Na esperança de dar um jeito naquela situação, localizei três mulheres à espera de um uber, e resolvi pedir uma carona até qualquer lugar que me tirasse dali hehe. Muito gentis, elas me acolheram e me deixaram próximo da parada do bus 47, um ônibus que carregava umas situações bizarras. Engraçadas, mas bizarras. Eu ri? Sim, mas ri para não chorar haha.

Essa noite me transportou para um fabuloso momento da minha infância em que "investia" muitas horas do meu dia jogando videogame, derrotando chefões e passando fases até virar o jogo. Mal eu sabia que aquilo era, na verdade, uma preparação para a vida real. Eu tinha a impressão de viver em algum jogo do meu PS2 (de preferência, não o GTA Vice City), sendo guiada pelo citymapper, e cada carona, bus e metrô se traduzia em uma fase concluída, chefões derrotados, pequenas vitórias. O tempo estava passando, e em meia hora, 2020 brilharia em fogos de artifício, e eu nunca estivera tão longe do triunfo daquele arco.

Eu já não sabia mais o que fazer para chegar ao meu destino e encontrar meus amigos. Era como se todas as soluções tivessem se esgotado, e no ápice da minha jornada a bateria do meu celular se despede de mim com um sorrisinho irônico de quem diz "te vira, querida". Eu estava sozinha e perdida em algum qualquer lugar desse caracol parisiense, minha bateria acabara de me trair, o frio cortava as costas das minhas mãos, e eu me sentia cansada e frustrada.

Esse é um daqueles momentos em que o universo me desafia e testa minha saúde mental e emocional. Era o momento de escolher entre amargura e serenidade, então decidi ir à caça de algum bar decente pelas proximidades para que eu pudesse carregar meu celular e voltar a sentir meu sangue circular pelos dedos dos meus pés mais uma vez.

Encontrei esse bar chamado Colibri, com alguns casais tranquilos e apaixonados, uns atendentes simpáticos, uma musiquinha de elevador relaxante e um vinho tinto que aqueceu meu coração e meus órgãos da região do terceiro chakra. Na TV, passava o show de luzes sob o Arco do Triunfo - e que show! Fiquei imaginando como seria assistir àquelas luzes através da tela dos meus próprios olhos, mas tudo bem, afinal estava grata por ali estar.

Faltando dois minutos para 2020, peço mais uma taça de vinho, mas não para mim, e sim para minha solitude, eterna companheira com quem eu fizera as pazes há alguns meses atrás. Dix, neuf, huit, sept, six, cinq, quatre, trois, deux, un. Bonne Année. Luzes se apagam, casais se beijam, garçons celebram, e eu bebo mais um gole do meu vinho tinto.

Na mesa ao lado, havia um casal de senhores belgas me olhando e, certamente, achando um pouco estranho o fato de eu estar sozinha naquela mesa de bar, naquele específico momento do ano. Eu sorri para eles. Eles sorriram de volta. Perguntaram se eu estava sozinha, e eu disse que sim, erguendo meus ombros como quem diz "é o que tenho para hoje". Eles se levantaram, vieram até mim e me abraçaram dizendo "Bonne Année". Marie Thérèse e Jacky me convidaram para me juntar a eles, e assim o fiz. Passamos a noite conversando sobre diversos assuntos, entre eles, o fato de estarem casados há 51 anos e não terem tido filhos. Tenho a impressão de ter sido adotada por eles nessa noite, pois fui tratada com muita ternura. Fui convidada para visitá-los na Bélgica, e será um prazer revê-los novamente :)

Serendipity: finding something beautiful without looking for it. Dicionário algum me fez genuinamente compreender o significado dessa palavra, e sim me permitir, explorar e agradecer - aquilo que dizem sobre viver. Obrigada, 2019. Obrigada, Marie Thérèse e Jacky. Obrigada, Paris. Obrigada, obrigada, obrigada. Seja bem-vindo, 2020 :)

Comentários

  1. Que texto lindo, me vi em muitas cenas vivendo exatamente essa história. Mas jamais saio de casa sem carregador portatil!! hahaha Adoreiii, continue escrevendo, sucesso.

    ResponderExcluir
  2. Que lindo!!! Amei saber que superou os medos e foi passear numa noite e o texto mostra como oportunidades aparecem quando damos a chance para isso acontecer. estou vendo que logo haverá um post sobre uma viagem para Bélgica e saberemos como continuará essa maravilhosa história de vida.
    Beijocas.


    https://www.parafraseandocomvanessa.com.br/

    ResponderExcluir
  3. Amei o texto! Você é uma escritora e tanto.
    Já estou lendo outras coisinhas aqui no blog e adorando.

    Abraços,

    Julia.

    ResponderExcluir
  4. Oi, Amanda! Tudo bom?
    Antes de mais nada, feliz ano novo. Que em 2020 você continue se aventurando e se encontrando cada vez mais em pequenos grandes momentos como esse. Seu texto, como sempre, teve a precisão cirúrgica de me tocar com delicadeza em lugares profundos e intensos - obrigada por isso!
    Abraços,
    Literalize-se

    ResponderExcluir
  5. Eu não sei nem explicar o quanto eu fiquei envolvida com esse texto!
    A fonte é a coisa que mais me fez sentir conforto em ler. Outra coisa, não só sobre o texto, mas sobre seu blog no geral, eu me senti como se estivesse lendo blogs lááá na minha adolescência, quando a vida real das pessoas eram contadas em histórias e você se prendia em querer acompanhar tudo por ali. Um lugar onde você se conecta naquele instante, com aquela parte da vida da pessoa e isso basta. São só sentimentos. Sem propaganda, marketing, 'engajamento'. To apaixonada pelo seu blog. Vou visitar mais e mais ♥

    ResponderExcluir
  6. Amei esse seu relato da sua rotina na cidade, fiquei encantada com tudo ♥️ Amei o seu blog, já estou curiosa para ler mais conteúdos assim!

    ResponderExcluir
  7. Nossa, que texto incrível, eu poderia ficar horas lendo sobre esse relato!
    É muito doido quando parece que a nossa vida se tornou uma história de um livro ou um filme, né? Enquanto eu lia, parecia que estava lendo um livro hehehe
    Feliz 2020 ♥

    ResponderExcluir
  8. No fim das contas foi um feliz ano novo, né? Fiquei apreensiva se as coisas tinham dado certo no fim, mas "certo" nem sempre é o que a gente acha que é. Foi o que aconteceu! Espero que seu 2020 seja cheio de boas surpresas, do jeitinho que começou, e o desse casal também!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Form for Contact Page (Do not remove)